Uma crise geradora de motivação e iniciativas

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Gilmo Giordani é fiscal de posturas na Prefeitura de Gramado. Foto: Laura Silveira.


O país vive um momento conturbado. As crises nos setores político, econômico e social vem desestruturando pessoas, empresas e instituições. Apesar do desequilíbrio que estes momentos causam, segundo o cientista britânico Charles Darwin, algumas pessoas tem uma “capacidade adaptativa” e automaticamente adaptam-se as mudanças.

A paralisação dos caminhoneiros contra os reajustes frequentes nos preços dos combustíveis, principalmente do óleo diesel, durou cerca de nove dias e afetou serviços essenciais para a comunidade. Em virtude da falta de combustível nos postos, aqueles que iam trabalhar com veículo próprio, precisaram procurar outras alternativas. Diante da falta de gasolina para abastecer o carro, o servidor público da prefeitura de Gramado, Gilmo Giordany, viu-se motivado a colocar em prática um desejo que vinha adiando há dois anos, desde que mudou-se para Gramado.

“A crise gerada pela greve dos caminhoneiros, obrigou muitas pessoas a buscarem outras alternativas de locomoção. Confesso, que foi o empurrão que faltava pra eu finalmente colocar em prática meu desejo de ter uma bicicleta”, comenta Giordany.

O servidor público conta que mudar o estilo de vida, deixar o sedentarismo de lado e economizar com o combustível são fatores que o motivaram a adquirir a bicicleta. “O carro ainda será uma opção de locomoção para viajar com a família ou nos dias de chuva, mas certamente estou aproveitando os benefícios que pedalar traz para a saúde”.

Segundo ele, a mudança de hábito lhe trouxe disposição, inclusive para trabalhar. Relata ainda, que as tarefas diárias tornaram-se mais divertidas. “Um bom exemplo de tarefa diária é levar minha filha de três anos para creche, para isso bastou adaptar um banquinho na bike. Os efeitos positivos de pedalar diariamente são perceptíveis, além de maior disposição para algumas tarefas, sinto melhoras também no meu humor. Se eu pudesse recomendaria à todas pessoas adotarem está prática”, propõe Giordany.

A escolha entre comodidade e economia

Como Gilmo, o chefe de turno, Cley dos Santos, também foi influenciado pela crise e pelo aumento do valor do combustível, deixou a motocicleta guardada na garagem e adotou o transporte coletivo como forma de locomoção até o trabalho.

Cley mora na Várzea Grande e todos os dias vai te ônibus até o pedágio que fica entre Gramado e Nova Petrópolis. Foto: Laura Silveira.

Cley trabalha na Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), todos os dias faz o trajeto entre o bairro Várzea Grande (onde reside),  até a Rodoviária de Gramado e por fim, da Rodoviária ao pedágio ( que fica entre Gramado e Nova Petrópolis).

Para ele, a paralisação que ocorreu no final de maio foi um fator preponderante que o fez sair da comodidade. “O carro e a moto te dão conforto, praticidade e de uma certa forma tu ganha tempo no deslocamento. Mas o fato da empresa fornecer vale-transporte e a oportunidade de economia me fizeram deixar os veículos em segundo plano”.

O chefe de turno lembra que a crise que ocorreu em 2001, que afetou a distribuição de energia elétrica, fez muitas pessoas mudarem seus hábitos de consumo e que mais uma vez ele precisou mudar os hábitos, mas desta vez, para economizar.

Uma iniciativa positiva para driblar a crise

A crise gerada pela falta do combustível também serviu de empurrão para uma iniciativa que estava prestes a ser implantada. No dia 2 de junho, foi lançada na Várzea Grande, a Feira do Produtor. A ideia já vinha sendo cogitada pela EMATER há alguns anos. “Ao assumirmos a Secretaria da Agricultura, procuramos dar andamento ao projeto e vínhamos tratando o tema com as lideranças rurais, organizações e agricultores. Já havia uma lista de produtores interessados e estávamos adequando a Feira na Várzea à revitalização do espaço do Terminal Turístico daquele bairro”, explica Alexandre Meneguzzo, Secretário da Agricultura.

A inauguração da Feira contou com a comunidade da Várzea Grande, vereadores, autoridades e a comunidade de outros bairros. Foto: Alcides Guedes.

Na visão do secretário, o risco iminente de desabastecimento generalizado na cidade, causado pela paralisação dos caminhoneiros, acelerou o processo de “construção” da feira, que iniciou no último sábado. Para ele, as crises podem, de certa forma, gerar iniciativas positivas. “A expansão da feira livre para a Várzea Grande significou isto, pois houve uma grande interação entre várias secretarias da prefeitura (notadamente a Agricultura (pelo Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal), Fazenda (pela fiscalização de rua), Saúde (pela Vigilância Sanitária)), EMATER, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Associação de Bairro e da própria comunidade para superar os obstáculos para a realização deste projeto de segurança e soberania alimentar para consumidores e para produtores familiares”.

A Feira conta com 16 produtores, que colocam para venda hortigranjeiros em geral, como: alface, temperos, chuchu, frutas cítricas, cenoura, beterraba, rabanete, etc., feijão, amendoim, aipim descascado e in natura, produtos de agroindústria, como iogurte, queijo, pães, cucas, biscoitos, embutidos, dentre outros.

Fazem parte deste grupo o casal de produtores Davi Rama e Beatriz Rama, moradores da Linha Bonita, no interior de Gramado e proprietários do ‘Morangos Rama’. Para eles, a iniciativa da Feira foi uma ótima ideia. “Esta crise mostrou que o produtor rural precisar ser valorizado. Nós não fomos atingidos pela falta de combustível, mas se a paralisação durasse mais alguns dias, seriamos afetados também”. O casal entrega frutas e verduras para cerca de vinte estabelecimentos na região e agora, todos os sábados, estarão também na Feira do Produtor, no Terminal Rodoviário da Várzea Grande.

O casal é proprietário do Morangos Rama e abastece cerca de 20 estabelecimentos na região. Foto: Marlova Martin.

De acordo com o Secretário, na Feira, há agricultores familiares da Linha Caboclos, Linha Bonita, Linha Marcondes, Várzea Grande, Serra Grande Alemã, Linha Hörlle, Morro Agudo. “O primeiro dia foi ótimo. A mobilização da comunidade, dos agricultores, de lideranças, a presença do prefeito, do vice, de secretários municipais, vereadores promoveu um inusitado sucesso”, destaca Meneguzzo.

Resiliência diante da desordem

Resiliência significa a capacidade de se restabelecer diante do caos. Nesse sentido, o psicólogo Osvaldo amorim, explica que diante de uma crise ou um sofrimento qualquer, pessoas proativas param para refletir sobre a circunstância e encontram alternativas para superar ou contornar o obstáculo que está obstruindo sua evolução, enquanto que pessoas reativas optam por criticar ou atribuir a terceiros a causa da crise, pela qual estão passando.

“Observe que todo salto de evolução que nossa sociedade vivenciou, foi a partir de crises ou guerras, as quais impuseram a quebra de velhos paradigmas. Viver é dinâmico, consciente ou inconscientemente, todo ser humano, não só necessita de mudanças, mas também as vivenciam ao longo da vida, no seu cotidiano” conclui Amorim.

As crises, apesar do sofrimento que algumas causam, são grandes motivadoras e criadoras de oportunidade, fazem parte do cotidiano. É necessário manter-se firme e motivado, para colher os bons frutos depois que elas passam. Já dizia Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.