“Talvez essa pessoa se surpreenda e perceba que é uma ótima e saborosa opção”

0
711


Ao descobrirmos novos meios e cardápios diversificados para uma alimentação, resolvi entrevistar uma jovem que opta por uma alimentação fora do costume tradicional. Esse texto intui uma nova forma de pensar acerca das nossas necessidades básicas.

Você se considera vegana, vegetariana ou apenas se abstém de carne?

Eu
me considero não carnívora. A definição formal seria ovo-lacto vegetariana,
porém procuro nem mencionar que sou pois as pessoas normalmente, ao ouvirem a
palavra “vegetariana”, já começam a fazer pré-julgamentos e tendem a se
conectar com o estereótipo presente no inconsciente coletivo de que pessoas
vegetarianas comem só alface ou comida sem graça, “natureba”. O que
absolutamente não é verdade.

O que motivou essa nova forma de cardápio?

Foram
vários fatores e um processo de aumento de consciência e entendimento até fazer
esta escolha. Decidi parar de comer carnes quando percebi que não era saudável,
além de desnecessário e de difícil digestão, quando passei a experimentar
comidas sem carnes as quais, ao contrário do que se imagina, é muito saborosa,
condimentada, nutritiva, variada, cheirosa, gostosa e bonita, e quando
compreendi que a criação de animais para fins de alimentação humana é um dos
maiores responsáveis pela poluição do planeta e do ar que respiramos, pelo
aquecimento global e destruição da camada de ozônio. A indústria pecuária polui
mais que todos os veículos do mundo.

Na
época nem estava tão atenta à violência animal sofrida e às questões mais
éticas, as quais se somaram depois às minhas reflexões, à medida que me
aprofundei no assunto.

Como é a reação das pessoas ao perceberem sua alimentação?

Muita
gente nem percebe. Já fui a vários eventos e encontros em que entrei e saí e
ninguém percebeu nenhuma diferença, porque quase sempre há opções que posso
consumir.

Quando
percebem, as reações das pessoas variam bastante. Muitas ficam curiosas pra
entender melhor como é, outras questionam o porquê da escolha, poucas não
entendem ou indagam em tom de cobrança. Mas a pergunta que mais ouço quando
descobrem é: “mas então o que é que você come?”, como se as pessoas comessem só
carnes (e muitas dessas vezes estou comendo quando perguntam). No início, a
maior parte das vezes eu que tinha receio de gerar algum desconforto ou
incômodo pela alimentação ser “diferente”, e enfatizava que não precisavam se
preocupar que eu me adaptava, mas meus amigos são muito maravilhosos e sempre
se esforçam para variar os cardápios. O que acontece é que as opções sem carne
ficam tão boas que todos comem e eu quase fico sem.

Quanto tempo faz que adquiriu estes hábitos?

Faz
8 anos que não ingiro carnes de nenhum tipo. Nem frango, nem peixe, nem
presunto, nem bacon, que por sinal, também são carnes.

Qual sua relação com a sociedade atual? Percebe algo diferente em relação à empatia?

Toda
e qualquer mudança gera desconforto num primeiro momento, até mesmo as escolhas
pessoais de outra pessoa. Não há evolução, porém, sem mudança, individual e
coletivamente. Percebo que há um movimento mais intenso de pessoas optando por
não consumirem mais carnes, chamando a atenção para este tema e gerando
reflexões. Longe do ideal, na minha percepção, mas tem-se falado mais nisso, há
mais informações disponíveis e maior esforço dos lugares e pessoas em oferecer
alternativas alimentares gostosas a quem decide não consumir mais. Isso acaba
por normalizar o que antes era diferente, diminuir a resistência e aumentar o
apoio, aderência e empatia. Logo, comparado há 8 anos atrás, considero que as
pessoas pouco a pouco estão mais empáticas com quem decide tornar-se
vegetariano.

Há algum tipo de interação social por adquirir este hábito?

Não
sei se compreendi a pergunta, mas não há nenhum tipo de interação específica
que preciso ter por ter modificado meu sistema alimentar. Ajo normalmente, como
agia antes da mudança.

Como foi/é a reação por parte de sua família?

Foi
um processo, em geral, divertido e interessante. Ao receberem a notícia, as pessoas
da família inicialmente não levaram muito a sério e acharam que seria algo
passageiro. Rolavam alguns deboches e piadinhas também. Mas fui levando na
esportiva, com bom humor e sem me estressar muito, e a maioria foi entendendo e
respeitando rapidamente. Alguns cansaram de tentar me incomodar, porque viam
que não surtia efeito. Em alguns casos isolados, precisei me posicionar mais
enfaticamente (mas sempre com educação) quanto a minha decisão e deixar claro
que eu respeitava a escolha de cada um de continuar comendo animais mortos, e
que, portanto, deveriam respeitar a minha também de não fazê-lo. Mas via de
regra foi bem tranquilo e todos perceberam que a resistência inicial era muito
mais uma questão cultural que se criou em torno da carne e de hábitos
alimentares adquiridos do que em função das poucas adaptações realmente
necessárias no cardápio da família. No fim, eles constataram que diversificar
as vezes é ótimo!

Você frequenta apenas lugares para vegetarianos e afins?

De
forma alguma. Como todos os demais alimentos que todo mundo come, menos carnes,
e nenhum lugar tem somente carnes para oferecer.

Por fim, qual mensagem deixar para a sociedade como prova e testemunho dos benefícios de sua alimentação?

Eu
poderia listar inúmeros benefícios e razões para alguém deixar de comer carnes,
como por exemplo melhora do sono, da pele, da memória, do humor, da vitalidade
orgânica e sexual, e da saúde como um todo, porém, além de já existirem
milhares de estudos científicos sobre este tema disponíveis na internet com
estas e muitas outras informações mais, o meu testemunho e experiência só eu
consigo sentir e comprovar. Então, a mensagem que eu deixo às pessoas que se
preocupam com sua saúde, com sua expectativa de vida e com o planeta em que
elas e suas gerações futuras viverão, é que elas façam a sua própria vivência e
reflexão e, assim, possam escolher com mais consciência ao invés de
simplesmente aceitar os hábitos alimentares que adquiriu desde criança, quando
nem tinha escolha. Sugiro que antes de pré-julgar e nem cogitar a possibilidade
de não comer carne, leia sobre, procure informar-se e se permita experimentar
ficar um período sem ingerir carnes, ou ao menos diminuir a quantidade e dias
de consumo e constatar por si mesmo os resultados desta mudança. Talvez essa
pessoa se surpreenda e perceba que é uma ótima e saborosa opção.