Signs of the times

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para Osvaldo Amorim

o som está perfeito
(perto das nove)

nossa, como mudou
e pensar que antes
era só sal e pimenta do reino

agora esses temperos novos
povoam a cozinha

e eu brigava com você, hein

não que eu estivesse
totalmente sem razão
mas, sei lá
parece que hoje eu
entendo o que importa

claro, tua paciência
e tua compreensão
persistentes
foram cruciais

o contraste
contudo
olha
foi revelador

quando você foi me buscar
no aeroporto
a gente parou naquele posto
em POA
aí lá você tava falando
sobre o que mesmo?
era sobre polegadas?
era. 2,54?
— é, uma polegada é 2,54 cm
mesmo —
é he he

o jeito que você franziu a testa
como você sempre faz
quando quer se lembrar de algo
e a mania de explicar
tudo
com detalhes
que falta que me fizeram
era você sendo você
que tem tanta paciência
pra deixar
eu ser eu mesma

só quem foi impedido de ser
quem se é
e depois conseguiu
finalmente ser
é que conhece
essa alegria
esse sabor

será que eu mudo o título
para
“meu mundo com mostarda”?

Obs.: Osvaldo, meu pai, tem a mania de colocar mostarda em tudo, até no arroz, se deixar. Bem, teve um dia que fomos comer torre de batata e a maionese temperada deles tava bem sem graça, então Osvaldo resolveu colocar mostarda na maionese. Eu não pude acreditar. Pra me deixar mais perplexa, a maionese ficou uma delícia. Daí eu disse: pai, eu vou escrever um poema chamado “meu mundo com mostarda” e ele amou a ideia. Meses depois, peço pra ele transcrever o poema acima e, quando eu disse o último verso, ele começou a chorar, com um sorriso no rosto.