Significações e sentidos da doação

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(…) uma
lembrança que chega embalada no tempo.

(Proust)

Quando Sabrina Sironi me convidou a um grupo on-line, não fiquei muito entusiasmada, mesmo assim compareci ao segundo encontro, para constatar o quanto a singeleza de uma ação cheia de pensamento pode produzir efeitos de bons encontros. O que mais me encantou foi o jeito despretensioso, simplesmente uma roda de conversa sobre o momento atual de pandemia. Uma simples roda de conversa entre conversadores, a maioria desconhecidos uns dos outros.

O que quero contar foi algo que me ocorreu durante esse encontro, o primeiro a que compareci, e que, certamente, eu já não saberia buscar sua sequência, se falava sobre as condições de vida da população brasileira em relação à europeia, quando num dado momento, se ofereceu à memória uma cena longínqua.

Éramos minha mãe e eu em meio a pessoas desamparadas, havia milhares delas tomadas por uma catástrofe – uma enchente assolara a metade mais pobre da cidade. Eu era então uma jovenzinha, 13 ou 14 anos, engajada no movimento estudantil católico, que através do colégio, havia entrado nos grupos de apoio a e0issa comunidade. Quando contei em casa, minha mãe se ofereceu a acompanhar nosso grupo às visitas, em um dos espaços onde estavam abrigadas as pessoas. A ideia que eu, minhas colegas, minha professora tínhamos sobre ajudar, era de uma caridade salvadora e inocente, mas, logo percebi que o movimento da minha mãe era outro. E, é nesse intervalo de diferença que ressoa o impacto da lembrança, no qual a cena me mostra, agora, fortemente – para além de ajudar na arrecadação de roupas, alimentos e outros, ela se implicou, talvez mais ainda, se envolveu. Buscou trabalho, mapeou programas, bateu na porta de políticos.

Suponho que essa passagem seja parte, mesmo que eu nunca a tenha contabilizado como tal, nos rumos da minha trajetória. Posso ainda me ver como profissional iniciante na psicologia, literalme7nte sofrendo no trabalho com escolares provenientes de classes populares: quando eu fazia uso de instrumentos clássicos de avaliação, categorizava essas crianças como deficientes. O incômodo me fez buscar uma formação na educação que tanto oferecia recursos sobre os processos de aprendizagem, tema muito inovador na época, como os articulava a áreas tais como sociologia, antropologia, psicanálise e outras.

Pela primeira vez estudo com profundidade as diferenças entre classes sociais e o que dessa disparidade incide na aprendizagem, nos processos de subjetivação, nas formas de lidar com a complexidade cultural. Essa mudança radical se insere intensamente no meu modo de vida, no que penso e faço ao longo dos anos, afirmando não só o direito, como a plena possibilidade de aprendizagem dessa população desfavorecida; ajudando a criar condições para tanto e, buscando outros modos de reconhecer a sua potência.

É difícil explicar para quem nunca se questionou, não se deparou com os signos, não tomou como um problema a ser resolvido, em que consiste a diferença entre viver e sobreviver. Ou mesmo, que classe social não se escolhe, nascemos em alguma, entre os recursos e as precariedades de cada uma delas; que o movimento e a mobilização, possíveis de ocorrer, estão vinculados à apropriação de saberes que potencializem os territórios culturais que intermedeiam entre elas. Dito de outro modo, que ter acesso aos bens culturais forjados em todos os extratos, para além e aquém das peculiaridades, é tão importante quanto acessar os demais bens, sejam eles científicos, filosóficos, econômicos, etc.

A precariedade material e sua conseguinte dificuldade de aceder e produzir, gera concepções de vida que a maioria de nós, em posições sociais mais favorecidas, desconhece na melhor das hipóteses, e na pior – nega. Costumamos avaliar os modos de vida das classes desfavorecidas a partir de nossos parâmetros, na maioria das vezes julgando – da forma mais antiecológica e menos holística possível – , a diferença que se produz incessantemente, como incapacidade pessoal de criar valores compatíveis para o trabalho, a educação, a saúde, a economia, etc. Se pode dizer que há uma ignorância mútua entre as classes sociais, as percepções entre umas e outras é crivada de equívocos, muito bem fundamentados através de nossa história. Essa cegueira permanente em relação àquilo que emerge em meio a precariedade material, faz sentir seus efeitos na usurpação desse capital humano através de sofisticados e perversos maquinários, dentre os quais o tráfico de drogas e a exacerbação fundamentalista.   

Voltemos ao que a memória não quer deixar escapar e que conclama um testemunho. Posso dizer a vocês que o feito por minha mãe na cena que lhes contei, teve, em parte, sua razão na própria história dela, de alguém que conheceu a pobreza em si mesma. Mesmo que tal vivência nem sempre seja um facilitador, ela fez esse raro movimento de entrar no lugar do outro. A isso se chama alteridade. É reconhecer o outro em sua potência, na diversidade da minha própria. É dessa concepção de alteridade que gostaria de lhes falar.

A ação de doar, de dar algo a alguém é constituída de significações as mais diversas. E, essas significações se constituem entrelaçadas à diversidade cultural: é um vivente imerso em determinada consciência de classe que dá, e nesse amplo espectro, dar sob essa perspectiva, pode ser “dar uma esmola”, como benevolência, como mérito de quem dá. Mérito esse compreendido como direito de nascimento ou de conquista, sempre uma ação desde um lugar onde não faltam os recursos para doar. Necessariamente, o sujeito-objeto dessa esmola está em demérito, lhe é exigido a subalternidade. Compreende-se que o gesto individual de doar é, geralmente, sentido como um bem, ou seja, a pessoa não percebe a transversalização cultural dessas significações instituídas.         

Na outra ponta do leque está a alteridade, posição sempre a ser construída, trabalhada nas relações, porque sem a priori. Desde aí, quem se propõe a doar abre-se à possibilidade de escutar, de aproximar-se às necessidades ditas e não supostas, de aprender algo da vida dessa outra pessoa, lhe atribuindo um lugar de pensante, de conhecedor dos sentidos de seu modo de vida, tenta compreender as suas demandas. Se implica.

É assim que o Semente de Vida, grupo criado a partir da roda de conversas, está percebendo as ações do Mural Solidário, aberto a uma escuta, por mínima que seja, mas, potente o suficiente para reverberar em ações futuras, a sensibilizar uma implicação que conduz à responsabilidade social. Não basta reconhecer a necessidade e contribuir para a sobrevivência emergencial. Nos enchemos de questões, novas ou renovadas suscitadas pelo momento, não queremos que o se passa, passe batido sem que se torne uma experiência. Assim, as perguntas oscilam, será que Canela dispõe de programas de geração de renda? Com o que contam os poderes constituídos para acionar recursos emergenciais? Será que a população se dá conta de prováveis mudanças nas mais diversas dimensões, na vida pós crise sanitária?…

Deixamos-lhes as perguntas, não para respostas imediatas, mas para que possamos juntos recheá-las com mais incertezas, mas, também, com nossas possibilidades de mudar.

Neusa Kern Hickel

Psicóloga. Psicopedagoga

Dra. Psicologia Social e Institucional