Rompente

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o que não tem o verniz do acabamento
possui o frescor da novidade
semblante do que está por vir.
se houver força pulsando e quanto mais intenso for
mais o presente terá ares de futuro

assim aconteceu em meio ao vendaval daquela noite
divisora de águas

no lago, logo após descobrirem a vigília ilegal feita por um homem comum,
consumido pelo ódio à iniquidade,
um forte vento cortou o momento em dois:
antes, os diversos grupos estavam ensimesmados;
agora, eles se percebiam em um conjunto maior
essa foi a primeira rajada, a sudoeste;
já a segunda veio do norte,
forçando a maioria ali presente a buscar abrigo em frente aos banheiros
embaixo das bordas do telhado, a única opção disponível

antes do tempo virar,
uma das jovens reparou em um homem com estranhas atitudes
– o próprio vigilante ilegal –
ao lado dos banheiros, o que permitiu que ela
antevisse a roubada na qual eles estavam se metendo.
ao se aproximar dele,
ela encarou firme nos olhos e estremeceu:
o homem transparecia um misto de ódio com medo,
entre o surto em direção a uma liberdade imaginada
e o retorno à conhecida clausura de suas angústias.
ela não sabia o que se passava ali
não tinha raiva dele
mas sentia que algo muito ruim estava para acontecer

então, por instinto falou bem alto:
“galera, vambora, vai cair o maior pé d’água”
e olhou para os outros com cara de
“faz-logo-o-que-eu-tô-te-falando”

como nem todos eram próximos,
apenas notavam um perigo iminente comunicado de olhar em olhar,
a retirada do bando foi tumultuada, sem rumo certo

o medo, a insegurança e o tênue nevoeiro
faziam daquela fuga um suspense surreal.
não havia armas, havia a câmera do homem
e um sem número de expectadores
virtuais