Reiventando a maternidade: uma reflexão sobre o papel das mães no atual momento

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Em um determinado período, quanto mais responsabilidades a mulher assumia dentro do lar como mãe e educadora, maior era o status adquirido na sociedade, que valorizava o devotamento e sacrifício em benefício dos filhos e da família. Para diminuir a culpa de seus desejos caberia à mulher ser uma boa mãe, colocar a criança em primeiro lugar na sua vida, ser recatada, ser generosa, ser compreensiva e sofrer calada.

Atualmente somos convidadas a rever esse sagrado, imperativo da reprodução, ao qual toda mulher poderá fugir. À imagem da mãe castradora, sofredora, culpada, aterrorizante, nutridora, frígida e continente escuro, ameaçador, construída na cultura patriarcal, contrapõe-se uma visão dinâmica concebida a partir da (própria) mulher atual.

Percebemos, ao longo do tempo, uma mudança gradual da função maternal, desse lugar de poder e opressão, auto-realização e sacrifício, da mãe que é muitas vezes objeto de construção ficcional, idealizada, demonizada. Ao se articular maternidade ao mito da mulher-perfeita, pensamos em Maria, que sempre teve um papel de destaque. Maria se apresentava para os devotos e para as mulheres, em particular, como um refúgio, uma mulher a quem poderiam recorrer como uma mãe, muitas vezes fugindo de um Deus que mais parecia um homem severo.

Podemos refletir sobre esse lugar que tudo suporta, que sofre calada, que se mantém casta, mesmo depois do parto, pois essa maternidade idealizada, artificial, pode se constituir inatingível.

O possível papel de mãe e esposa, que foi outrora designado para a figura feminina como sendo o único lugar na sociedade, hoje, não mais se sustenta. O desejo pela maternidade, de ter um filho como idealização simbólica, pode realizar-se em outros objetos. A mulher dos tempos de Freud não é mais a mesma dos dias atuais. Foi a partir da segunda metade do século XX que a maternidade começou a ser compreendida como uma construção social que designava o lugar da mulher na família e na sociedade.

Estamos em um momento onde começamos a rever as relações de gênero, refletindo sobre as implicações sociais que decorrem da fixação de normas e valores sociais, baseados na rigidez de papéis ditos como masculino e feminino. Tais papéis são construídos socialmente, assim como a “maternagem” e a “paternagem”.

Os conflitos vivenciados por mulheres nos propõem a construir algo diferente do culturalmente estabelecido, em busca da superação, da concepção de maternidade como destino. Nesse exercício, nos libertamos de papéis historicamente delegados e vemos movimentos sociais como os que o momento que estamos passando convidam, nos apresentando diretivas menos dominantes sobre a forma de viver, se proteger e se conduzir.

Esses novos papéis e lugares de homens, mulheres, pais, mães, empresários, funcionários… na sociedade atual faz a gente pensar nas leis, na divisão de tarefas, em compartilhar papéis. Nos convida a sermos protagonistas dessa história nesse momento histórico que estamos vivendo, juntos, investindo em autonomia, solidariedade e criatividade para nos reinventarmos.

Pensando nessa capacidade que temos de nos reinventar, dividimos algumas idéias, sugestões e palavras para as mulheres / mães que estão vivendo o retorno ao trabalho:

As relações de trabalho são, na sua essência, relações de trocas: justas ou nem tanto. No entanto, o momento atual trouxe à tona o quanto precisamos uns dos outros. Seríamos todos beneficiados se as pessoas, empregados e empregadores, pudessem chegar a um denominador comum, afinal, todos precisam do trabalho: aquele que é feito por quem trabalha e o trabalho dos que precisam que ele seja realizado. Na verdade, são duas pontas de um mesmo assunto. Por outro lado, seria interessante evitarmos situações de stress desnecessário, pois ele é nocivo, sempre foi, e agora mais do que nunca, é algo que faz mal a nossa saúde. Já estamos todos em uma circunstância difícil. Todos precisamos preservar nossa saúde. A recomendação vai no sentido de que se preserve a vida, em primeiro lugar, e que se possa fazer negociações, flexibilizar, de um lado e de outro. É necessário que os estabelecimentos da cidade funcionem, mas sem pessoas com saúde não se pode mantê-los com qualidade e de forma justa.

E como repensar a rotina com os filhos?

A rotina tem efeito organizador para as crianças – e não só para elas. É estratégico estabelecer rotinas desde o momento de acordar até à noite, ao adormecer. É importante alternar momentos de atenção com períodos de descanso, lazer e até mesmo com os eletrônicos, desde que não sejam em excesso.

Começar a ensinar nesse momento?

Ensinar a cuidar de algumas coisas relacionadas à organização da casa, desde que seja algo que esteja ao alcance da capacidade das crianças. Ensinar de forma a explicar o porquê se faz aquele cuidado daquela maneira. Isto tem verdadeira eficácia.

Como organizar tempo e tarefas?

Propiciar períodos de movimentação do corpo, através de brincadeiras que possam ser realizadas dentro de casa: brincadeira de esconde-esconde, esconder algum objeto, fazer cabanas de lençóis e cobertores, fazer um lanche diferente.

Reservar período de fazer as tarefas escolares tendo o cuidado de não fazer exigências muito pesadas. O ciclo de atenção tende a ser mais curto fora do ambiente escolar. Fazer períodos de 20 minutos de concentração. Deixar descansar um pouco saindo fora do foco e depois ajudar a retornar aos deveres.

Caso seja possível, sem correr riscos, ir ao terraço ou pátio para tomar um pouco de sol por alguns minutos.

Reflexões sobre como tornarmos possível a travessia deste momento, e juntas encontrarmos um espaço para pensarmos em possibilidades diante da necessidade de todos nos cuidarmos e reinventarmos sendo o isolamento social uma medida de prevenção.

(Sabrina Barbosa Sironi- Psicanalista e Soraya Abdalla Mhamed Maihub- Psicóloga e Psicanalista).