Provocações acerca da última live

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Vivemos um momento em que a lógica da cidadania nos convida a “dar voz” àqueles que historicamente são pouco ouvidos, aqueles que eram invisíveis e, neste momento, somos obrigados a ver o que ficou muito evidente, sendo que, para muitos, a capa da invisibilidade ainda se faz.

A preocupação não é a ordenação do caos e do mal-estar, a partir de índices previamente estabelecidos, mas abrir espaço para a singularidade do novo momento, onde nos cabe inventar os elementos que podem oferecer algum destino produtivo e criativo a esse caos. Isso talvez não se dê pela via do racional que se assusta, mas permitindo um diálogo entre inúmeras facetas e lugares em nosso modo de fazer o social.

O grupo Sementes da Vida e tantos outros construídos nesse período de forma criativa, seguindo o pensamento freudiano em “O mal-estar na civilização”, seria uma das possíveis saídas para o alívio da angústia que esse momento convoca diante o não saber. Essa angústia é provocada pelas renúncias que estamos tendo que fazer diante da nova realidade que se apresenta com a pandemia e a vida na civilização. É esse caminhar e as coisas que surgem nesse encontro que nos convidam a mudar de lugar e olhar as coisas por outra perspectiva.

A invenção do sujeito sobre si mesmo diz respeito ao corte, ou aos possíveis cortes que ele pode efetuar com a intervenção do grupo e dos novos papéis a que o momento convida, produzindo novos significados para sua existência. Pode-se produzir uma reflexão, por exemplo, sobre o que Eduardo Moreira, em seu novo livro, fala quando contrapõe a economia do desejo à  economia da necessidade. A economia do desejo é o que o sistema nos impõe e hoje estamos sendo convidados para a economia da necessidade como ele a denomina. Nossa sociedade vem ensinando as gerações a um desejar sem limites, mas, nesse momento, o planeta não comporta mais isso. E muito menos o social comporta, segundo esse olhar que propomos construir onde todos possam ser vistos e escutados em suas necessidades.       

Esse momento nos convida a despertar para uma mudança radical em relação ao que é o capitalismo, nessa forma como ele se apresenta hoje.

Nessa invenção como grupo Sementes da Vida, os sujeitos começam a se apresentar além de componentes em sua individualidade, porque partilhamos juntos, construímos juntos, cada um com seu saber, riqueza, cor e subjetividade. Há aquele que fala sobre filosofia, psicanálise,  literatura, economia, lúdico, histórias infantis e familiares, cuidado com os professores e famílias para além de uma ordem lógica, numa horizontalidade. Esse é o sonho de mundo! De um mundo possível! É aquele que conta poesia, que fala de comunidades que partilham e dividem tarefas, é aquele que divide o saber pela sua experiência de vida, que por mais simples que parece é o que engrandece o grupo. É essa a invenção a que o momento e o grupo Sementes da Vida e Mural Solidário convidam, pois sabemos pela via do afeto e frutos que já estamos colhendo e que vemos dando certo em pequenas coisas que isso é reinventar modos novos de Ser pelos vários cantos do mundo. Replicar o Mural Solidário em outras cidades, como já estamos percebendo acontecer, é formar grupos de escuta e troca nesse momento que estamos vivendo como sociedade.

É justamente essa produção de novos significados, de novas maneiras que o sujeito encontra para falar de si, de sua história e colaborar socialmente de forma mais ativa, onde pensamos e exercitamos a consciência desse molde patriarcal como estávamos acostumados até aqui. Somos convidados cada um, em pequenos atos a fazer, a colocar em prática algo pelo outro, e no fundo por nós mesmos. O momento convida cidadãos mais ativos, menos passíveis a manipulações, a decisões que vem de cima, somos convidados a construir juntos. E é só quando assumimos esse papel, valorizando nosso saber e nosso fazer que colaboramos com nossa sociedade e comunidade e passamos a ganhar voz, a sermos vistos e ouvidos.    

Ao acolher nossas invenções, somos autores dessa nova fase que a vida está nos convidando a rever. Estamos ao mesmo tempo buscando constituir um lugar diferente para cada sujeito. Cada um colocando a sua cor que vai moldar esse novo espaço que se apresenta. Inventar uma nova rede social e novas intervenções que acolham as invenções e o jeito de cada sujeito, permitindo a circulação em totalidade. Quebrando e rompendo o que Maria Rita Khel coloca, que é o capitalismo colonizando nosso inconsciente. Estamos abertos como grupo Sementes da Vida e Mural Solidário a novos movimentos porque isso está nos fazendo sentir vivos! E você? Aceita o desafio de se permitir um novo lugar?  

Há uma possibilidade de sujeitos que antes não eram vistos, poderem, através de novas posturas de cada um, se inserirem no laço social. Por mais que tenhamos concepções distintas de sujeito, de desejo e de lugares discursivos, vemos a possibilidade de articulação, embora inicialmente pareçam ser excludentes.

O que se pretende apontar, ao longo deste questionamento do momento, é o espaço vivo (o lugar antropológico) de contradições no qual estamos sendo convocados, de nos colocarmos para o centro da cena, para o interior de nossa sociedade cujo funcionamento é destinado a apagar a incômoda singularidade do pathos. De sair do lugar de esperar do governo, do líder, do diretor, do prefeito, de nos colocarmos em cena. Talvez o exemplo das abelhas e formigas respeitando as castas, mas trabalhando lado a lado em uma comunicação clara, organizada e ativa  nos convide a uma bela observação! Talvez, como no Mural Solidário, elas também consigam ser claras e se auxiliar mutuamente. 

Bion desenvolveu sua teoria durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhando com grupos terapêuticos para tratar os neuróticos de guerra no hospital Northfield, antes de conduzir psicoterapias de grupo na Clínica Tavistock, em Londres. Como oficial de um regimento de tanques, ele se distinguiu pela bravura e esta lhe valeu diversas condecorações, estranhamente vividas como um grande fardo, na medida em que ele deveria, daí em diante, ser bravo, embora se sentisse interiormente covarde. Será como nós também nos sentimos nesse momento¿

Fico pensando em Bion, nesse sentimento de covardia que o momento ativa em nós, não para nos colocarmos em risco diante a ameaça real de um vírus altamente violento e contagioso, mas do receio de começarmos a fazer algo dentro de nossas possibilidades e limites.

Outra questão que teve consequências em sua prática ligava-se a sua surpreendente preocupação com a obediência dos soldados às ordens. De fato, a experiência da guerra teve um papel determinante em sua reflexão, pois ele percebe o grupo como um “teatro de guerra, buscando identificar o perigo no interior desse mesmo grupo e utilizando a guerra para pensar o grupo”. Podemos acrescentar à metáfora da guerra constituindo o solo fértil de uma espécie de cruzada para a emancipação dos homens, vistos finalmente não como sujeitos passivos, mas como seres capazes de refletir sobre suas experiências, de desenvolver um pensamento próprio, de elaborar, por si mesmos, decisões e julgamentos maduros. Bion pensava que, enquanto o grupo funcionava segundo as hipóteses de base “luta-fuga” e “acasalamento”, os participantes agiam como adultos, o que não ocorria quando predominava a hipótese “dependência”.

É necessário que cada um aceite o convite a desacomodar, de sair desse lugar de dependência  e fazer um pouquinho que seja, mesmo com medo, insegurança e um não saber se vai dar certo, se ficará bom, perfeito, se atingirá objetivos. Talvez não dê frutos, mas quem sabe essa idéia incentive um outro a fazer também, a continuar¿  

Se as estratégias de “reinserção social” nesse novo modo de ser e fazer sociedade propostas nessa provocação não forem articuladas e pensadas, podemos tornar-nos mecanismos adaptadores e empobrecedores do sujeito e de seus enigmas na possibilidade de virada que esse momento oferece.

E é a isso que a proposta das quatro, que se estenderam para cinco lives, convida, instiga, provoca. O desacomodar. O início para você que está escutando fazer algo, pouquinho que seja, qualquer coisa já faz a diferença, sair do campo das idéias e vir para a prática, para a ação.

O poder da palavra nos permite significar e representar afetos que não são claros e provocam angústia, nos permitem brincar, trazer leveza e humor como disse ontem Luis Cláudio Figueiredo. Se tivermos cuidado e respeito pelas diferenças uns dos outros poderemos brincar e nos tornar leves, tornando esse momento possível de fazer travessia. Se tornarmos as palavras ásperas, porque não entramos em contato dialogando com nosso mundo interno, projetamos no outro e destruímos as diferenças e nos destruímos juntos, desvalorizando aquilo que faz sentido para o outro.

As palavras são nosso instrumento para crescimento, embora difícil  porque nos desacomodam, nos inquietam, nos fazem pensar e entrar em contato com muitas partes nossas, nem sempre agradáveis, porque somos seres de conflito, como já dizia Freud em Mal Estar da Civilização. Elas acessam nossa biografia e a construção de nossa história e subjetividade.

O Sementes da Vida e o Mural Solidário, de forma audaciosa, convidam outros grupos com esse funcionamento  a esse contágio saudável.