Poema de Humberto Vieira

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estou diante do vazio pleno vazio
um dia me disseram que isso era bom
mas eu não sei não
dói demais
uma tensão que não se desdobra
não se fluidifica

não tem nome, não tem passagem, não
tem endereço
não tem destino

eu preciso minorar
eu preciso minorar essa dor
eu preciso minorar
meu corpo se dobra
e não há onde se pegar
não vem da carne
é a dor que a mastiga

eu preciso minorar
não existem palavras que me digam
é um movimento violento envolto de poeira
insondável aos olhos nus
e aos outros quatro sentidos nus

sexto sentido
eu já não sei usar

se tirasse a negação
pedras que confundem
meu oceano em uma bacia
se derramaria no chão
e acharia a terra
lama, muita lama – mexo, amasso, seco –
e barro então
a me moldar
eu
artífice
do meu tempo