Paternagem: Pais relatam como é participar da criação dos filhos

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Pai Alcides com a filha Samanta. Foto: Arquivo Pessoal.


De acordo com as necessidades que a família vem sofrendo ao longo do tempo, o modelo de organização familiar onde o pai era o responsável por trabalhar e trazer o sustento para a família, e as mães ficavam responsáveis pelas atividades domésticas e pelo cuidado das crianças, enraizado no século passado, vem sofrendo modificações.

A inserção das mulheres em massa no mercado de trabalho, fez com que passassem a dividir com o homem o papel de provedor da família. Portanto, pesquisadores começam a prestar atenção na relação do pai com a família, como também na importância do vínculo entre pai e filho.

Há algumas décadas, a “paternagem” vem sendo tema de discussão entre pesquisadores e especialistas. De acordo com o Centro de Estudos da Criança – CEC, a “paternagem” está relacionada com a presença e o vínculo emocional que esse pai desenvolve com o filho. Vai além de um rótulo, é fruto da busca pela aceitação da mudança que a chegada de um filho representa na vida do homem. É a participação ativa no desenvolvimento e construção dessa criança.

Atualmente, além da ajuda nos afazeres domésticos, os pais estão despertando para a necessidade de acompanhar o crescimento dos filhos. Alcides, Felipe e Jean, mostram que há muito mais do que necessidade nesse envolvimento, eles participam da vida e criação dos filhos porque, segundo eles, é a fase mais feliz da vida deles.

Em relato para o Portal Gramado News, os pais falam sobre as transformações que ocorreram nas suas vidas quando decidiram praticar a paternagem ativa e ser pais presentes na vida dos seus filhos.

“Feliz como nunca na vida”, afirma Alcides Guedes

“Minha vida antes da Samanta era uma vida boa, divertida, com um troco sobrando, passeando, saindo a noite, namorando com minha esposa, pedalando horas a fio e fotografando sempre. Enfim, uma boa vida. Após o nascimento da Samanta, passo minhas noites em casa, viro noite com ela gripada, vejo desenho e conheço cantigas, galinha pintadinha e mundo bita, sei de cór. Saídas noturnas são raras, normalmente só na volta de um passeio diurno. Dinheiro, o que é isso? Só vejo contas e cartão de crédito estourado com compra de fraldas, lenços umedecidos, Bepantol e um ou outro mimo, para ela e não para mim. Bicicleta? Vendi. Fotografia? Só pra pagar a conta. Paisagens? Só a filha. Feliz? Como nunca na vida! Aprendi a felicidade nas pequenas coisas, num abraço, num cafuné, num “papatiamu”. A felicidade em ver sua filha andando de balanço, ou melhor, andando. Felicidade ao sentar no sofá com sua filha de mãos dadas com você vendo um desenho e sentir ela fazendo carinho no seu dedo, pois a mão dela ainda é pequena demais.
Felicidade ao acordar e vê-la sorrir pra você. Minha vida antes foi ruim então? Não, foi ótima. Mas agora é muito melhor”.

“Ser pai é tudo de bom!”, conta Felipe Borusewsky

O pai Felipe com as filhas Helena e Rafael. Foto: Arquivo Pessoal.

“Sempre fui muito aventureiro, amo a natureza, pescar, viajar. Sempre fui trabalhador, e nas folgas dava um jeito de ir pescar. Em 2010 me mudei para Gramado, junto com meus pais e a Daiane, minha esposa. Iniciamos uma nova vida, agora, empreendedores hoteleiros. De 2010 a 2014 foi muito trabalho. Ao longo de 2015 minha esposa engravidou, o pai urso (como sou chamado pela Helena), passa a proteger a família dele. Sou muito simpático a praticas xamânicas, e sempre que dava ia em vivâncias relacionadas. Ali com 6 ou 7 meses, passei a deixar de ir, ou ir com o coração muito apertado para não me afastar dos meus, agora, dois amores. Depois que Helena nasceu, saia mais cedo da pousada para poder estar logo em casa. Santa internet que me aproximava quando estava trabalhando.  Meu lazer também, pescaria e vivencias, passou a diminuir ainda mais. Mas por um ótimo motivo. Agora era casa, trabalho, casa. A noite, ao invés de ficar dormindo quando a Helena acordava, pulava da cama com a Daia para auxiliar. Fomos curtindo bem esta experiência, e achávamos que iriamos fechar a fabrica. Dai em um momento “de bobeira”, indecisos, tentamos uma única vez. Se era para vir, viria. E veio, Rafaela, nasceu no final de 2018, em casa. Ai vi que se uma mulher te muda, a segunda mais ainda, a terceira nem se fala. Aprendi a ser ainda mais “urso”, afinal, sou pai de família, tenho três lindas mulheres para cuidar. Consegui ir organizando as folgas no trabalho nos finais de semana, mesmo que só o sábado ou domingo, mas é este o dia em que a Helena não tem creche. Sempre que dá, saio mais cedo do trabalho e corro para casa. Meu lazer e atividades de interesse, retomo no futuro. Claro que algumas atividades no xamanismo mantenho, mas sempre que da organizo elas durante o dia, quando a helena esta na creche. Daí me culpo menos por não estar com elas. Em raras exceções, passo uma noite fora para participar de uma vivencia. Por mais que me culpo em estar longe, sei que preciso estar bem para ficar de pé e poder amá-las ainda mais. Se mudaria algo na minha vida? Jamais. Ser pai é tudo de bom!

“Duas vidas completamente diferentes”, relata Jean Beux

O pai Jean e o casal de gêmeos. Foto Arquivo Pessoal

“Fico pensando o que eu estaria fazendo em um dia normal no cair da noite antes de ter os meus filhos? Provavelmente nada de mais. Jogando um vídeo game, escutando música, talvez estudando. Hoje é correria ao voltar do trabalho para ajudar a fazer a janta, dar banho, fazer mamadeira, brincar, até a hora que dormem, e às vezes estou tão cansado que nem da vontade de jantar. Mmas nem questiono sobre qual momento é melhor. Hoje minha vida faz sentido, o antes já me parece somente perda de tempo. Antes de ter meus filhos, o trabalho não tinha horário, nem dia, nem feriado. Tive que me educar a impor limites a isso. Já não atendo em qualquer horário, feriados são uma chance de ficar mais com eles durante o dia, mais brincadeiras e claro, mais cansaço. Finais de semana agora são sagrados! Desde o início peguei junto às tarefas da paternidade, desde dar banho a trocar fralda na madrugada e dar mamadeiras para o descanso da amamentação. O mais difícil foi conciliar noites mal dormidas ao trabalho. E ainda assim ao acordar pela 5ª vez na madrugada, sem forças para deixar os olhos abertos, bastava um sorriso ou uma gargalhada, que as baterias já ganhavam uma boa carga. Tive que aprender a cozinhar na marra! Já que muitas vezes somente um consegue brincar com eles enquanto outro faz a janta. As atividades com os amigos ficaram bem reduzidas, sair à noite por enquanto são raríssimas vezes, o entretenimento mudou da cerveja no bar com os amigos, para o chimarrão na pracinha, com os mesmos amigos que também se tornaram pais. O jantar fora, fica por uma pizza em casa com Netflix. No dia a dia, o caminho é casa para o trabalho e do trabalho para casa”.

Ser pai no século XXI

De acordo com o psicólogo Osvaldo Amorim, ser pai na atualidade está tirando o sono de muitos homens do século XXI, em especial daqueles que relutam na mudança de hábito, dado que exige abdiquem de uma cultura, da qual foram educado, quando os papéis de ser pai ou ser mãe, eram bem distintos.

“Ocorre que ser pai ou mãe são construtos sociais, ou seja, mudam à medida que a sociedade muda, de forma irreversível, mas ainda tem quem não percebe ou ignora estas transformações”, explica Amorim.

O especialista descreve algumas hipóteses que distanciam o pai dos filhos: O pai, quando criança, provavelmente foi criado na ausência de seu pai, em outras palavras, a tendência será a repetição do modelo; Dificuldade ou medo de aceitar mudanças; Rigidez de comportamento (princípio do “pau que nasce torto, morre torto”); Desconhecimento dos benefícios que podem ser auferidos.

Para ele, compartilhar o cuidado dos filhos com a mãe, trás benefícios não só para os filhos, mas também para o pai, visto que, é a oportunidade de reviver a infância e permitir a reinvenção de novos hábitos de convivência. “O principal benefício aos filhos com a participação do pai na educação é o estabelecimento de vínculos afetivos, a referência, o modelo, o exemplo e a segurança que o futuro adulto terá. Já na ausência do pai, a educação dos filhos será no sentido oposto, ou seja, adultos inseguros pela falta de vínculos, modelo e referências”, conclui Amorin.

Tudo vem se modificando anos após ano. É fundamental que os pais entendam e reflitam sobre a importância que tem na vida e na formação dos filhos, sejam eles de sangue ou de coração, seja uma família tradicional ou não. A paternidade é uma atribuição própria dos pais e como exposto anteriormente, trás benefícios para ambos.