Pandemia exige que professores se adaptem a um novo cenário

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Júla Hanel trabalha há 10 anos na rede municipal de ensino. Foto: Arquivo Pessoal.

Os desafios enfrentados pelos professores diante da pandemia, ocasionada pelo novo coronavírus, não se restringem apenas ao fato de não ministrarem aulas presencialmente. Além do ensino de forma online, docentes da rede pública municipal de Gramado, relatam outras mudanças, as quais precisaram se adaptar para continuar desenvolvendo um trabalho de ensino com os alunos.

Professora da rede pública há 10 anos, a gramadense Júlia Hanel, 32 anos, relata que este novo cenário está sendo desafiador. Ela necessitou adaptar-se rapidamente com os horários estipulados para atender a demanda de cada escola. Júlia é professora de Biologia e Ciências, dá aulas em três escolas de Gramado: EMEF Carlos Nelz – Caic, EMEF Mosés Bezzi e EEEB Neusa Mari Pacheco – CIEP. “Em tempos de ensino remoto, o modelo de ensino e as necessidades mudaram. É preciso que os horários sejam seguidos a risca e a presença de uma agenda para que nenhum recado, atividade, seja esquecida”.

A professora destaca que é importante lembrar que a escola não parou! Um dos desafios para ela e os colegas foi a necessidade de encaixar-se rapidamente em um novo formato de trabalho, que não era comum e tampouco sabiam como desempenha-lo. “É uma experiência árdua, que me testa todos os dias. Precisei de recursos próprios como computador, internet, espaço adequado, quadro branco. Além disso, o atendimento aos alunos mudou, quando estávamos em sala, quando um tinha um questionamento, podia parar a aula e explicar a todos, sanando assim a mesma dúvida de outros colegas. Hoje, ao contrário, preciso atender o aluno individualmente, para tanto preciso estar atenta no celular e disponível em horários maiores, pois alguns alunos realizam as atividades apenas quando os pais voltam do trabalho e não no horário de aula”, explica ela.

O fato de estar diariamente em casa, fez com que a demanda dos afazeres domésticos aumentasse. “Estas atividades domésticas também tomam um período de tempo e me deixam mais cansada. Não tenho filhos, e por isso, estou conseguindo dar conta da demanda das três escolas que trabalho, mas imagino que para as colegas, que além de todo o trabalho remoto, todos os afazeres em casa, ainda precisem dar atenção aos filhos e seus estudos, deve ser bastante desgastante e desafiador”, diz a docente.

A distância e a falta de convívio com os alunos e colegas, para Júlia, faz toda a diferença na prática pedagógica. “Muito difícil é a falta de contato, o convívio diário, que nos permitia compreender melhor o processo de ensino-aprendizagem de cada um, a relação professor/ aluno ficou muito distante neste contexto o que dificulta ainda mais a aprendizagem”.

A professora menciona que tem enfrentado esse momento com muita disciplina e atenção, tem buscado aperfeiçoamento para esta nova realidade. “Durante este período, aprendi a dar aulas com mais recursos tecnológicos, o que tem sido de excelente crescimento profissional”. Porém, ela coloca, que um dos maiores desafios neste momento de pandemia é dar ensino de qualidade para todos, visto que, no ponto de vista da docente, a desigualdade social ficou evidenciada. “O desafio é chegar a todos os alunos, levar o conteúdo aqueles que possuem tão pouco”, expõe.

Na opinião da professora, hoje fica evidente a importância da aula presencial, a presença do professor e de um ambiente de convívio para uma aprendizagem de qualidade. “Imagino, que para o período pós-pandemia, o ideal seria uma aprendizagem onde exista este ambiente de troca, de aprendizagem, mas também que não se perca este mundo tecnológico, que veio para auxiliar no processo de ensino”.

União e trabalho bem fundamento são essenciais neste momento

Anabela Sartori é professora na Escola Gentil Bonato. Foto: Arquivo Pessoal.

Professora do 5º ano, na Escola Municipal Gentil Bonato, Anabela Martins Sartori, 54 anos, destaca que este cenário totalmente novo exige muito trabalho individual e coletivo, empenho, profissionalismo, estudo, sensibilidade e criatividade por parte de todos que trabalham na área da educação, em Gramado. A professora explica que para desenvolver um bom trabalho, cada ano escolar está se comunicando e interagindo por meio de um grupo de WhatsApp, que foi criado lá no início da interrupção das aulas presenciais, com a mediação e orientação, segundo ela, muito eficiente, do Coordenador do Ensino Fundamental da Secretaria de Educação, Carlos Vinicius Baraldi.

“Eu, por exemplo, junto com minha colega Kátia Katczinski, coordeno o 5º Ano dos anos iniciais do Ensino Fundamental. É um trabalho muito interessante e bem fundamentado, pois os profissionais da Educação (supervisor, professora do AEE e todas as professoras do quinto ano da rede) que compõem meu grupo, são muito participativos”, relata.

De acordo com a docente, a maior preocupação, sempre, é produzir remessas de materiais, contendo atividades que sejam estruturadas com as habilidades estabelecidas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e que, ao mesmo tempo, sejam atrativas e significativas em termos de aprendizagem. “Tem sido um lindo e produtivo trabalho! O maior desafio é o de fazer com que os materiais produzidos sejam interdisciplinares e que, de fato, consigam fazer com que os objetivos traçados sejam alcançados. E isso posso garantir, com muita satisfação e alegria, que vem ocorrendo!”, conta entusiasmada.

Além disso, Anabela ressalta que há um cuidado, também, em estudar e adaptar os materiais, adequadamente, para que os mesmos possam atender, com qualidade, os alunos que fazem parte do Atendimento Educacional Especializado (AEE), contando com o acompanhamento da Coordenadora do AEE da Secretaria de Educação, Elize Souto, e de toda a sua equipe.

Professora há 33 anos na rede municipal de ensino, segundo a docente, mesmo estando em vários momentos na escola, no atendimento aos pais, no recebimento e entrega das remessas, nos momentos de correção ou sempre que são chamados pela equipe diretiva, um dos desafios é a distância dos alunos. “Sinto falta do convívio com os alunos, das interações entre eles, porque eles são “a vida” da sala de aula! Isso não há como substituir”, menciona.

Para ela, como os planejamentos, os registros da prática docente, os acompanhamentos na resolução das atividades com recursos multimídia e os estudos, têm sido realizados em casa, a maneira de organizar e executar as tarefas de trabalho precisou ser readequada. “Com certeza, temos trabalhado e nos dedicado muito mais! As aulas remotas exigem uma metodologia e “um olhar” diferenciados”, explica a professora.

Mesmo diante de uma pandemia, de tantas incertezas e em muitos momentos, tantos julgamentos, Anabela diz que é uma honra e benção ser professora. “No Dia do Professor, gostaria de dizer que tenho uma imensa satisfação por fazer parte desse grupo de profissionais, que tanto trabalham e se dedicam em prol do desenvolvimento, do bem-estar e da aprendizagem de seus alunos e, consequentemente, em prol da comunidade. Parabéns a todos os professores”, parabeniza com alegria.

“Professores são guerreiros”

“Os professores são guerreiros. São artistas que se reinventam com muito compromisso com a vida, com a qualidade do trabalho realizado, realmente com a aprendizagem”, é como a secretária da Secretaria Municipal da Educação de Gramado, Maria Gorete da Silva, define o corpo docente da rede pública de ensino.

De acordo com a secretária, os professores estão trabalhando de forma significativa e com planejamento. “Há uma construção coletiva das atividades pedagógicas. Foram revisados todos os objetivos de aprendizagem, para adequar a este momento de pandemia aquilo que era prioritário”, explica Gorete.

Ela coloca que este ano é atípico e que é necessário valorizar a vida. “Os professores estão fazendo avaliações, contatos com os alunos, com as famílias, orientando em relação as atividades e agora a partir de outubro, está sendo realizado um acompanhamento pedagógico nas escolas, para atender aqueles alunos que estão com mais dificuldade de realizar as atividades e organizar o material”. A secretária destaca que há um agendamento para os atendimentos e que os encontros acontecem com todos os cuidados de distanciamento social e protocolos sanitários.

“Nós, como Secretaria Municipal de Educação, só temos a reconhecer e agradecer ao trabalho que tem sido realizado neste momento de pandemia. Um trabalho comprometido, competente, com uma educação pública e de qualidade”, manifesta Gorete da Silva.