“O fascinante é descobrir e olhar o indivíduo como ele é”, conta a educadora Alessandra Oviedo

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Alessandra Oviedo é Educadora Especial na EMEF Mosés Bezzi. Foto: Bruna Campos.


Há 24 anos trabalhando como educadora especial, Alessandra Rodrigues Oviedo iniciou sua carreira em 1995 e há quatro anos atua na rede municipal de Gramado. Professora no Atendimento Educacional Especializado-AEE, na EMEF Mosés Bezzi, na Várzea Grande, a educadora trabalha com crianças de 6 a 15 anos e a pouco desenvolveu um projeto com o objetivo de debater a inclusão entre os alunos. Um dos seus sonhos é viver em um mundo mais inclusivo.

GN – Há quantos anos trabalha como professora?

Alessandra – Iniciei minha carreira de professora em 1995 após me formar em Licenciatura Plena em Educação Especial pela UFSM – Universidade Federal de Santa Maria. Permaneci por 18 anos em Apiaí e depois retornei ao RS, portanto já são 24 anos como educadora especial.

GN – Sempre trabalhou como Educadora Especial?

Alessandra – Sempre trabalhei como educadora especial, tendo início em uma cidade chamada Apiaí no estado de São Paulo onde também estive no cargo de coordenadora pedagógica e depois diretora do CEMAE – Centro Municipal de Atendimento Especializado. Naquela época ainda não se falava sobre inclusão, portanto a escola funcionava nos mesmos moldes de uma “escola especial”.

GN – Porque escolheu a área de Educadora Especial?

Alessandra – Quando fazia magistério uma professora solicitou um trabalho de grupo para ser realizado na APAE, não me recordo ao certo do que se tratava. Fomos eu e mais duas colegas. Elas com muito medo pelo desconhecido e eu muito tranquila. Ao chegarmos, a diretora nos recebeu e ficamos aguardando para sermos chamadas por uma professora. Um aluno adulto se aproximou e começamos a conversar e me senti muito a vontade naquele local. A partir disso, percebi que me chamava a atenção aquele trabalho. Ao ir para Santa Maria fazer o vestibular para fisioterapia, descobri que a universidade ofertava a Educação Especial e foi então que decidi cursar e seguir essa carreira.

GN – O que te fascina na profissão?

Alessandra – O fascinante é descobrir e olhar o indivíduo como ele é. É perceber que cada um tem sua forma particular de aprender, tem o seu processo individual. É ter que observar suas capacidades, seus desejos, suas vontades, suas dependências e despertar nele uma forma de aprendizagem que o possibilite construir seu espaço. É ter que elaborar estratégias diferentes, para pessoas diferentes, em momentos diferentes, a cada dia, e fazer com que elas tenham um resultado satisfatório.

GN – Um momento marcante na tua carreira?

Alessandra – Não há um único momento que marcou, porque muitas pessoas passaram por mim, deixando suas marcas e construindo marcas em si mesmas. Houve muitos momentos marcantes dos quais lembro com carinho… do aluno que conseguiu usar o banheiro com independência, daquele que diminuiu as estereotipias, daquele que fez relações de conhecimentos importantes, da que leu, do que falou meu nome… E que, para muitas pessoas, isso é muito simples sem muito significado. Quem é educador especial sabe do que estou falando, pois vivemos de pequenas conquistas, mas cheias de esforço.

GN – Um sonho como educadora?

Alessandra – Como educadora especial compartilho do mesmo desejo que, creio sejam de todos os envolvidos nessa tarefa, é ter um mundo inclusivo em que as diferenças não sejam vistas como diferenças e sim vistas, como pessoas. Um lugar em que não precisaremos mais ouvir: “O que ele tem?”, “Ela não pode estar aqui, pois não é seu lugar”,  “Nossa vou ter que fazer rampa para uma pessoa somente?” Um lugar em que pessoas sejam simplesmente pessoas, que possam ser elas mesmas com suas potencialidades e suas dificuldades.

GN – Sobre o projeto dos bonecos com deficiências, como surgiu a ideia?

Alessandra – A idéia surgiu a partir da solicitação da professora Isaura do 1° ano A (EMEF Mosés Bezzi) que queria que eu fosse conversar com seus alunos sobre o autismo, pois na sala dela tem um menino com esse transtorno. Pensei que não seria viável apenas falar sobre o TEA e sim levar as deficiências de uma forma leve, lúdica e informativa. Surgiu então a necessidade de falar sobre o assunto em todas as turmas da educação infantil e também do ensino fundamental, porque entende-se que a melhor forma de aceitação é o conhecimento evitando os juízos antecipados ou ideias preconcebidas apenas por observações feitas. Nos anos iniciais, mais especificamente, o brincar está ainda muito presente nessa faixa etária e nada melhor do que bonecos para fazerem parte dessa “brincadeira”. Com isso se pensou no projeto: “NÃO SOMOS IGUAIS E ISSO É LEGAL: DISCUTINDO  AS DIFERENÇAS”.

GN – Qual o objetivo do projeto?

Alessandra – As pessoas com deficiência hoje fazem parte do espaço escolar e portanto surgem questionamentos entre os alunos sobre essas deficiências, como auxiliar, o que esperar deles, quais suas reais condições, o porquê de determinados comportamentos, qual prognóstico, etc. Considera-se que a escola é o melhor local para desenvolver a empatia, pois é um ambiente favorável para praticar o respeito as diferenças e a começar a olhar o mundo sob a perspectiva do outro. A partir desse momento é que começa a inclusão, quando olhamos o mundo que nos rodeia pela visão do outro, praticando o respeito que é a base fundamental para que o aluno com deficiência faça verdadeiramente parte da escola. Portanto o projeto tem por objetivo possibilitar o debate e a aceitação do processo de inclusão entre os alunos, diminuindo as barreiras existentes e promovendo o desenvolvimento de uma cultura educacional inclusiva.

GN – Como os alunos receberam a ideia?

Alessandra – Muito radiantes e curiosos ao mesmo tempo, fazendo muitos questionamentos, dando exemplos e principalmente se colocando no lugar do outro. A cada boneco que ia para a sala de aula, eles o nomeavam e ele permanecia durante todo aquele período como um “colega”. Eles tinham a oportunidade de andarem com ele pela escola, levarem para brincar e lanchar, fazer as atividades, etc. Além disso, as crianças confeccionaram um livro com desenhos de cada deficiência, figurinhas e dicas de como auxiliar essas pessoas. Ao final levaram o livro para casa a fim de compartilhar com os pais essa aprendizagem.

GN – Na tua opinião, tu atingiu teu objetivo?

Alessandra – Ao apresentar o (a) boneco (a) sempre os questionei: “O cadeirante pode estudar nessa sala?”,  “A menina cega pode estudar aqui?”  E as respostas eram unânimes: “Sim!!” Continuava a perguntar… “Mas ele não anda e tem cadeira de rodas?” “Ela não enxerga”  As respostas sempre foram… “Prof. tudo bem… ele (ela) pode estudar aqui, nós ajudamos”. Com essas respostas e a postura das crianças, acredito que o objetivo foi atingido…

GN – Houve algum momento que te chamou a atenção ao apresentar o projeto?

Alessandra – Vários momentos, porém num deles ao apresentar o cadeirante e conversar sobre causas, acessibilidade, cuidados, etc, as crianças perceberam que não daria para levá-lo ao refeitório porque o acesso a este local é com escada. Decidiram chamar o diretor Daniel e o questionaram sobre a construção de uma rampa para que o “colega” pudesse acompanhá-los no lanche. Inclusive uma das crianças disse: “Dire, eu tenho dinheiro no meu cofrinho e posso trazer para construir a rampa”. Esse episódio demonstrou o quanto as crianças se colocam no lugar do outro e os aceitam sem preconceitos, quando lhes é proporcionado o conhecimento sobre o assunto.

GN – Nesta semana que se comemorou o Dia dos Professores, uma mensagem para os colegas de profissão.

Alessandra – Deixo a frase de Augusto Cury:

“Professores brilhantes ensinam uma profissão. Professores fascinantes ensinam para a vida”.

Que sejamos um tanto brilhantes e um tanto fascinantes!!