“Nunca pensei em desistir” diz pai que cria três filhos sozinho

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O pai Adilson dos Santos e seus três filhos: Ana Laura, Ana Carolina e Ícaro. Foto: Laura Silveira


Levantar várias vezes à noite para dar a mamadeira, trocar a fralda, preparar o filho e sua lancheira para a escola, voltar a ler histórias infantis. Esses e outros cuidados, que eram apenas rotina das mães, agora também fazem parte do cotidiano de muitos homens, que sozinhos, criam seus filhos.

Nas últimas três décadas a família nuclear – pai, mãe e filhos – constituída no final do século XVIII, a partir da Revolução Industrial, está se transformando radicalmente. Naquela época, quando os pais foram trabalhar nas fábricas e escritórios, se distanciaram dos filhos. A mãe passou a ser a única responsável pela criação das crianças e pelos cuidados do lar.

Mas um novo modelo de pai está surgindo e com ele a desmistificação de que a criação dos filhos é tarefa exclusiva das mães. Claro, não podemos negar o fato que em função de vários fatores – culturais, fisiológicos e psicológicos – criar um filho torna-se uma tarefa um tanto difícil para muitos pais.

Mais que um Pai

O gramadense Adilson dos Santos é carpinteiro e pai de Ana Carolina, Ana Laura e Ícaro. Ele conta que há cinco anos cria seus três filhos sozinho. O menino tinha um ano quando a mãe os abandonou, Ana Carolina quatro e Ana Laura cinco. “No começo foi bem complicado, eles eram todos pequenos. O Ícaro usava fralda”. Adilson comenta que já ajudava na criação deles, mas que mesmo assim quando ficou sozinho tudo foi muito difícil. “Agora eles já estão grande, mas no inicio eu os levava na creche e tinha que ir trabalhar. As vezes, quando estava chovendo, eu vinha com um em cada braço e com três mochilas nas costas”, expõe ele.

Adilson relata que a vida dele é trabalhar, cuidar da casa e cuidar deles. “Automaticamente eu chego em casa e a primeira coisa que eu faço é o lanche deles, depois vou fazer a janta, depois lavar a roupa, aí dou banho no Ícaro e arrumo as coisas do colégio”. Na sua concepção, mesmo que a rotina seja cansativa, ele prefere ficar com os filhos, ao invés de a mãe tê-los levado embora com ela. “Quero que eles estudem aquilo que eu não pude estudar, para que não passem o trabalho que estou passando”, deseja o pai para os três filhos.

O Carpinteiro expõe que vive por causa dos filhos e que trabalha bastante para que nada falte para eles. “Nunca tinha imaginado ter que criar meus filhos sozinho, mas nossa vida é cheia de surpresas e temos que estar sempre preparados para tudo”. A família de Adilson era tradicional, todos trabalhavam, mas quem cuidava do lar e dos filhos era a mãe dele. Ele relata que a mãe era quem cuidava dele e dos irmãos e que ele teve que aprender automaticamente a cuidar dos três filhos.

A psicóloga Carolinne Medeiros destaca que o homem ou a mulher ao cuidar uma criança utilizam-se inicialmente do que se chama de “instinto materno”. “A criança se apresenta para o adulto como um ser pequeno, frágil, indefeso, necessitado de cuidados. Automaticamente, o adulto que enxerga essa criança se identifica com essa criança de alguma forma e a vê a partir de sua própria visão subjetiva, ou seja, enxerga com base na criança que foi, nas suas faltas ou excessos infantis, na sua história Infantil”. “Com isso, o cuidador baseia a criação e cuidados com a criança na sua própria história. Isso é positivo inicialmente para que o adulto se disponha inteiramente em formar a criança. Porém, é importante conscientizar que esse ser que se apresenta ao cuidador não é ele e têm outras demandas”, complementa ela.

Desafios da paternidade

A psicóloga conta que existem vários motivos que levam os pais a exercerem uma função paterna sozinhos. “Seja pela morte ou o próprio abandono da mãe”. Segundo ela, além dos desafios práticos da rotina de cuidar de uma criança ou adolescente, esses pais enfrentam o grande desafio na formação psíquica e emocional dos filhos pela “falta” da função materna.

A rotina diária de cuidar de uma criança é pesada, culturalmente e psiquicamente a mulher está mais preparada para isso, pois desde a infância, se encontra dentro desse mundo simbólico dos cuidados materno. “Porém, isso não significa que os homens não têm capacidade para tal função prática. Pelo contrário, o mundo moderno oferece esse apoio para os homens com a evolução da tecnologia, informação e praticidade para conciliar o cuidado com os filhos e o trabalho. O maior desafio é sob o ponto de vista psicológico: exercer a função paterna sem negligenciar a falta da função materna (que é estruturante para a criança)”, explica Carolinne.

 Fatores x Criação

A psicóloga Carolinne Medeiros comenta que culturalmente a participação do homem no cuidado diário com os filhos tem sido mais explorada pela sociedade de um modo geral. “Hoje já existem cursos para pais ensinando como trocar fralda, fazer papinhas, dar banho, etc. Porém, os homens ainda enfrentam um pré-conceito em relação aos cuidados com os filhos, pois essa conquista de espaço é um processo cultural que levará anos”, explica ela. Segundo a psicóloga, a participação ativa dos pais no cuidado diário é um avanço para o desenvolvimento psíquico das crianças. “Assim há uma grande aproximação pai e filho, e uma complementação na função materna”, expõe Carolinne.

Ela levanta que do ponto de vista fisiológico, os homens se sentem mais incapazes de cuidar de uma criança pela “falta” de delicadeza e manejo nas tarefas, principalmente pela criança se apresentar como um ser “frágil” e pequeno. Mas isso é um mito social que já tem caído por terra, pois a função paterna não se constitui por delicadeza ou agressividade.

Olhando pelo lado psíquico, a psicóloga revela que mesmo que os homens exerçam a função paterna com maestria, eles mesmos percebem que algo ainda falta: a função materna, na complementaridade da constituição dos filhos. “Porém, muitos pais encontram sozinhos nesta criação. A escola, a família e amigos tentam suprir essa falta ajudando de alguma forma. Essa rede de apoio é de extrema importância para o pai e para as crianças, pois assim se sentirão acolhidos, apoiado e de certa forma acompanhados nesse caminho de formação”, destaca a profissional.

Carolinne ressalta que a função materna é indispensável  pois a mãe ou quem exerce a função materna, tem o papel de  preencher as funções que o bebê necessita, entre elas, a função da alimentação, da higiene, do suporte, de deslocamento. Além de fazer com que a criança sobreviva, a pessoa nesta função materna também está encarregada de dar significação à todas essas necessidades internas e externas da criança e inscrever psiquicamente um sujeito nesse bebê. Desse modo, a função materna sustenta para a criança uma imagem que serve para ela como referência para constituir-se subjetivamente.

Esse sujeito materno, ou seja, aquele que exerce a função materna vai manejar o bebê conforme determinam os significantes de sua própria história e também, de acordo com o lugar que esses significantes atribuem ao seu bebê.

“É importante para os pais que criam os filhos sozinhos saberem claramente o papel e a importância de cada função para poder ajudar a criança na organização psíquica interna e na elaboração da falta da função materna da melhor forma possível, sem necessariamente destruir ou denegrir a imagem da mãe que não está presente seja por qual motivo for pois essa imagem é de extrema importância para estruturação psíquica da própria criança”, finaliza a psicóloga.

Texto: Laura Silveira

 

Carolinne Medeiros Lobo de Andrade Peres
Psicóloga / CRP – 07/25875
Contato: (054) 999393149
Site: www.carolinnemedeiros.com
Instagram: @projetomaternita
Face: Psi Carolinne Medeiros

 

 

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