Hum

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eles já tinham bebido
e fumado muito quando Jaques
começou com aquele papo de tempo
esférico,
dizendo que na verdade não existia antes,
agora e depois em linha reta,
o tempo se move em espiral.
quanto mais reto se pensa o tempo,
dizia ele,
mais esférico se torna o movimento,
fosse por pensamento altivo e universal,
fosse por um looping viciado.

na verdade,
aquele papo tinha dado uma bruta ânsia e
o vômito roxo no pano da Bela era sua
última lembrança antes de acordar no
hospital, às duas da tarde, cercado pelo seu
pai, a tia Aline e a Maria Isis, que se
divertia com sua boneca de papel. apesar
do ambiente tenso que ali se instaurara,
Maria Isis avivava tudo ao seu redor

por sorte, a tia Aline lhe dava cobertura,
defendendo-o das verdades inquisidoras de
seu pai. Edson não era o tipo de homem que
se impõe, ele só vinha com suas frases prontas,
preocupado em fixar algum norte para a situação.
embora tal atitude irritasse Humberto, agora ele
temia o que viria a seguir

e olhou para Maria Isis mais uma vez. ela
era um ponto de mutação brincante, passeando
com sua boneca pelos móveis, divisando entre
os planos de duas a três dimensões. em um lado
da boneca, via-se o desenho colorido de sua feição,
suas roupas e mãos; já do outro lado, que Maria
Isis mostrava quando a boneca estava “pensando”,
via-se o papel em branco, que funcionava como um
furo no cenário, uma abertura inusitada.

Humberto olhou para seu pai de novo, sem saber o
que aconteceria… sem saber o que aconteceu na noite
anterior. foi quando a boneca da Maria Isis encostou no seu
tornozelo direito e disse:
“Beto, que tatuagem é essa?”