Gramado busca reduzir a repetência escolar

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Professora Ana Meri Matozo durante aplicação do método fonético Boquinhas aos terceiros anos no ano passado. Ela é uma das responsáveis pela implantação da prática. Foto: Carlos Borges.


Em busca da diminuição nos índices de repetência nas escolas do município de Gramado e buscando proporcionar uma melhor qualidade de vida aos estudantes da rede, as secretarias da Educação, Saúde e Cidadania e Assistência Social compõem uma equipe multidisciplinar que realiza um trabalho inédito na cidade. Semanalmente, os profissionais se reúnem com o intuito de conhecer os jovens, debater e propor abordagens integrais às demandas particulares de cada estudante que tem encontrado dificuldades no processo de ensino-aprendizagem.

A secretária da Educação, Gilça Silva, que propôs a iniciativa na administração municipal, conta que desde o segundo semestre do ano passado professores da pasta vem fazendo levantamentos sobre as condições dos alunos que têm dificuldades no aprendizado e apresentam maior índice de notas baixas. “Com um trabalho em rede, buscamos entender qual é a realidade desse aluno. Quais são suas perspectivas para que assim possamos auxiliar esse estudante, criando mecanismos para o desenvolvimento físico, intelectual e moral. Com o trabalho da equipe multidisciplinar conseguimos dar uma atenção especial a esses alunos, ampliando as oportunidades educativas e psicossociais”, explica.

O secretário adjunto da Cidadania e Assistência Social, Ricardo Cazanova, que possui mestrado e doutorado em Serviço Social, salienta que a equipe tem buscado potencializar o trabalho de cada área, o que repercute positivamente na efetividade dos serviços públicos e na elevação da qualidade de vida da comunidade Gramadense, principalmente daquelas famílias em situação de maior vulnerabilidade social.

Construção de um banco de dados para auxílio nos serviços

A partir do levantamento das informações realizado pelos professores e da atuação da equipe multidisciplinar produz-se um banco de dados, que auxilia no acompanhamento e reconhecimento da realidade desse aluno.

“Mapeamos por onde andam estas crianças e adolescentes, quais são suas ocupações no contra turno, dentre outras informações, por exemplo”, ressalta a pedagoga e psicomotricista, Clarinda Oliveira.

Nas pesquisas apresentadas pela equipe de campo, foi constatado que alunos que sofrem com ambientes familiares inadequados têm uma tendência maior a apresentarem falhas no aprendizado. Desta maneira, o objetivo do projeto é auxiliar estes estudantes com apoio fonoaudiólogo, psicológico e de neurologista, entre outros profissionais e serviços ofertados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“Com o encaminhamento da equipe, não há necessidade destas crianças passarem pelo trâmite normal, que exigiria consulta por médico clínico ou pediatra. Esse trabalho em rede das Secretarias, essas reuniões servem também para agilizar o processo de atendimento”, conta a diretora da Atenção Básica do município, Fernanda Campos Meireles.

Testes psicológicos são ofertados pelo SUS

Dentro das avaliações dos alunos no consultório psicológico, são aplicados testes padronizados que avaliam aspectos cognitivos dos estudantes, além do desenvolvimento neuropsicológico, como ocorre com a ferramenta clínica Neuropsilin, que se propõe a descrever de forma compreensiva o desenvolvimento ao longo do ciclo vital, da adolescência ao envelhecimento, tanto daquelas crianças neurologicamente saudáveis quanto as portadoras de quadros neurológicos ou neuropsiquiátricos.

Já para medir aspectos da inteligência é utilizado o WISC, que consiste na compreensão verbal, no raciocínio abstrato, na organização perceptual, no raciocínio quantitativo, na memória, na velocidade de processamento.

Trabalho iniciou pelos alunos AEE e participantes do Boquinhas

Para dar o pontapé inicial ao trabalho da equipe multidisciplinar, captou-se primeiro os alunos AEE (Atendimento Educacional Especializado) do município, e posteriormente, os estudantes do terceiro ano, que mesmo tendo participado do Método Fonético Boquinhas, acabaram reprovando. Após, buscou-se os demais alunos insuficientes em 2017.

“Estamos atuando em várias frentes, fazendo uma triagem dentro da rede municipal, buscando entender o que acarreta as dificuldades do aluno em sala de aula. Se ele tem algum tipo de deficiência ou problema social, por exemplo”, ressalta a secretária da educação, Gilça Silva.

60% dos alunos foram aprovados com o Boquinhas

Atendendo uma das principais prioridades da secretaria da Educação em relação aos avanços na aprendizagem, foi implantando em 2017 em algumas escolas do município o Boquinhas, um método fonovisuoarticulatório, que em sua proposta utiliza-se além das estratégias fônicas (fonema/som) e visuais (grafema/letra), as articulatórias (articulema/Boquinhas).

O programa foi aprovado como Tecnologia Educacional pelo MEC e tem sido atestado como eficiente para alfabetizar quaisquer crianças, bem como recuperar aquelas que têm dificuldades com a leitura e escrita, contribuindo com o aumento do IDEB de nosso município.

Em apenas três meses de uso do método em Gramado, já se obteve bons resultados. A prática proporcionou a aprovação de 35 alunos que estavam em defasagem, ou seja, 60% daqueles que receberam a aplicação do método.

Nesse ano, todas as escolas do ensino fundamental aplicarão o Boquinhas para turmas do primeiro ao terceiro ano, em conjunto às técnicas e métodos já utilizados pelos professores em sala de aula. Os kits para uso do método foram entregues às instituições e uma primeira formação aos educadores de primeiro a terceiro ano, supervisores e orientadores, professores de AEE e direção escolar ocorreu no dia 17 de abril no Polo da Universidade Aberta do Brasil.

Qual é a participação da família no processo?

O psicólogo clínico Francisco da Costa, Mestre pela Universidade de Barcelona, explica em entrevista qual o papel da família no aprendizado dos filhos.

– Por que alunos que enfrentam dificuldades em casa tem piora geral no êxito escolar?

É natural que um contexto tenha impacto sobre o outro, mas pelo forte peso emocional, as dificuldades em casa podem afetar negativamente os resultados na escola. Da mesma forma, décadas de estudos comprovam o impacto positivo do suporte parental na performance dos estudantes. O acompanhamento das atividades como os temas de casa, a participação na escola, e o bom relacionamento com os professores são exemplos.

É no seio da família que se estabelece com mais força a transmissão de valores. As relações com os familiares contribuem significativamente para vários aspectos da personalidade das crianças, como o autoconceito, a persistência e a capacidade de lidar com o estresse e a frustração. Importante perceber que esses fatores pesam mais do que qualquer condição socioeconômica.

– Qual é a maneira mais adequada de um apoio psicológico não só aos alunos, mas às crianças e adolescentes em geral que sofrem com um ambiente familiar inadequado, visto que são mais vulneráveis?

 A maneira mais adequada em geral é a que consegue abordar o maior número de áreas envolvidas no problema e no suporte ao aluno. Quando escola e pais trabalham em conjunto com uma equipe técnica e isso tem o suporte da comunidade, temos a condição ideal.

Deve-se oferecer um espaço protegido de escuta e um olhar de cuidado, procurar compreender o contexto da criança ou do jovem, a situação emocional e as dificuldades que enfrenta usando esse conhecimento e experiência para seu benefício. O resultado de toda intervenção nesse sentido vai se espalhar para as outras áreas e situações da vida do jovem, criando um círculo virtuoso.

– Em quanto tempo é possível esperar uma melhora em um tratamento psicológico em idade escolar?

É difícil se estimar com precisão o resultado e tempo de intervenções psicológicas, visto que cada caso tem características e situações únicas. O atendimento psicológico busca essa melhora oferecendo um lugar de acolhimento e não julgamento. O simples fato ou a percepção pelo aluno de que alguém se está ocupando amorosamente de ouvi-lo e ajudá-lo, já pode criar de imediato um resultado positivo.

– Na sua avaliação, qual é a importância de um acompanhamento psicológico para crianças e adolescentes na escola?

Os psicólogos podem atuar ajudando não somente o jovem, mas as suas famílias a entender as suas necessidades mentais e emocionais. No contexto escolar também atuam no fortalecimento da relação entre família e instituição e servindo como apoio ao trabalho dos professores.