Furo

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essa era a ideia: deixar uma parte faltando.

depois de toda bizarrice que acontecera no lago, o pessoal se juntou
e foram todos para a casa do Thiago, o tatuador iniciante
na verdade,
alguns se dispersaram em postos de gasolina
e outros foram atrás de pegação, como se costumava dizer
o que importa é que um grande grupo se formou a partir dos reveses –
ou da sorte,
porque a saída que Minnie encontrou (ou inventou) foi genial
por fim, ela virou o jogo e fez com que o homem difamador
a ajudasse a encontrar seu celular na grama, junto com seus amigos
assim que acharam o tal aparelho,
eles foram para o posto Alfa e de lá
foram para a casa do Thiago
onde estava Jorge, o místico

ele havia tatuado uma espécie de mapa no braço direito
com uma parte faltando no meio

quando ele foi questionado a respeito,
Jorge respondeu sumariamente que em torno da dúvida
sempre há uma zona conhecida capaz de negligenciar aquele furo
além do mais,
o que estava fora nem era considerado
“é a inversão do conhecimento
onde o menos parece mais”
disse ele arrematando o assunto

ao ouvir aquilo, Humberto estremecia em seu íntimo
porque Jorge acabava de repetir o que sua irmã fizera horas atrás:
a síntese de seus erros

seu incômodo era tal que chegava a ser visível:
uma espécie de chama tomava seu rosto
deixando tudo avermelhado e um pouco fora do lugar

ao vê-lo assim, inflamado,
Jorge buscou uma alternativa para refazer a harmonia local
então, como as pessoas ali pareciam ávidas por um espetáculo,
ele logo se lembrou do jogo que sua irmã
estava terminando de acabar.
sem hesitar, lançou o convite:
“mas o furo pode ser bom também,
é o lado escuro da lua
se vocês quiserem, eu sei de um jogo que mexe
exatamente com isso”