Festival de Cinema estreia no Canal Brasil com o início das mostras competitivas

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Debate foi transmitido do Palácio dos Festivais pelas redes sociais. Foto: Edison Vara / Agência Pressphoto


Foram meses de preparação para colocar o Festival de Cinema de Gramado “no ar”, mas a noite de estreia no Canal Brasil correspondeu a todas as expectativas. Com exibição de excelente qualidade de imagem e som, o público acompanhou na grande tela, mas desta vez da TV de casa. E quem tem acesso à programação ao vivo do Canal Brasil pela internet, também assistiu do notebook, do tablet, do celular e, o mais surpreendente e novo, de qualquer lugar. O formato multiplataforma inédito rompeu os limites físicos da sala de cinema e foi ao encontro do espectador. “Reunimos todos os esforços para realizar o Festival sob qualquer hipótese. Foi emocionante acompanhar o esforço sendo materializado e tem nos alegrado imensamente receber o retorno positivo tanto dos realizadores quanto da audiência que tem nos acompanhado pelas redes sociais”, avalia Rafael Carniel, presidente da Gramadotur, autarquia municipal  responsável pela realização do Festival de Cinema de Gramado. 

A exibição da mostra competitiva iniciou com o curta “4 Bilhões de Infinitos”, do cineasta mineiro Marco Antônio Pereira. O curta é o quarto de um conjunto de cinco produções que se passam em Cordisburgo, terra natal de Marco, cidade que fica no início do norte de Minas Gerais.  Depois foi a vez de “Receita de Caranguejo”, de Issis Valenzuela, que retrata a relação de mãe e filha que decidem passar alguns dias na praia após a morte do pai e resolvem cozinhar caranguejos. 

O primeiro longa exibido foi “Por que você não chora?”, da cineasta Cibele Amaral. A história aborda temas rodeados de tabu como saúde mental e ideação suicida. E o longa argentino “El silencio del cazador”, de Martín Desalvo, encerrou  a noite com a história de um guarda florestal, um caçador e uma médica rural cujas rivalidades do passado voltam à tona, mas questões ambientais e sociais também permeiam o roteiro.

Debate foi transmitido pelas redes sociais

Os quatros filmes protagonizaram o primeiro debate transmitido pelas redes sociais na manhã deste sábado. Marco, que assina a direção, roteiro, direção de arte, direção de fotografia, trilha musical, trilha sonora original, montagem e desenho de som contou como é fazer cinema em uma cidade de 10 mil habitantes, como Cordisburgo. “Brinco que na verdade agora são 9.999 porque saí de lá aos 18 anos para estudar. É uma cidade de poucos recursos, se preciso comprar um tripé, tenho que ir até a cidade vizinha ou até mesmo a Belo Horizonte, por exemplo. Não tem profissionais de audiovisual lá, não consigo chamar alguém para fazer a luz, então é tudo comigo e com minha esposa”, explicou. Marco contou que em 2017, quando fez os três primeiros filmes dos cinco, chamou Manoel, seu vizinho (que participou de “Retirada para um coração bruto”). “Subi no muro, chamei o Manoel, e convidei: vamos fazer um filme? E ele respondeu: que horas?”, brinca.

A diretora Issis Valenzuela e a atriz Preta Ferreira conversaram sobre “Receita de Caranguejo”. “Para mim, é muito importante fazer parte deste Festival”, comenta Preta. Issis e Preta, mulheres negras e potentes, enfatizam a importância de fazer parte do mercado. Segundo dados da Ancine (Agência Nacional de Cinema) em 2016 75,4% dos diretores dos longas foram homens brancos e 19,7%, mulheres brancas. Os homens negros, por outro lado, dirigiram 2,1%, e as mulheres  negras não assinaram a direção de nenhum dos 142 filmes. “É importante a gente ter pessoas negras em todos os lugares. Esses curtas e longas estão chegando, que esse movimento não tenha mais volta”, comenta Issis. Preta Ferreira, que é integrante do MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) ficou 108 dias presa.  “Me consideraram um perigo para sociedade (dos senhores feudais).  A gente sabe como funciona”, comenta.