“Enquanto tivermos feminicídios não teremos terminado nossa missão”, diz coordenadora do CRAM de Gramado

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Elisandra de Paula é coordenadora do CRAM de Gramado desde janeiro deste ano. Foto: Laura Silveira.
Há mais de 10 anos trabalhando para defender mulheres vítimas de violência, Elisandra Andreia de Paula tem 41 anos, é formada em Direito e desde 2005, quando começou a trabalhar na Coordenadoria da Mulher/Centro de Referência para a Mulher, junto à Prefeitura Municipal de Caxias do Sul, trabalha diretamente com a causa. Em janeiro deste ano, Elisandra iniciou seu trabalho no Centro de Referência de Atendimento à Mulher  – CRAM em Gramado, como coordenadora.
Como surgiu a vontade de trabalhar nesta área e por esta causa?

Sempre me identifiquei com a luta pelos direitos das mulheres, desde muito jovem, tive muito incentivo por parte do meu pai para ser independente, dirigir, trabalhar e especialmente estudar e tinha entendimento de que isso era o normal para nós mulheres, mas infelizmente não é a realidade, e a questão da violência doméstica é algo que sempre me chocou muito, quando via reportagens nesse sentido, sempre me questionava, “como um ser humano é capaz de tanta maldade??”, e sentia uma vontade imensa de fazer a diferença e lutar por essa causa, aconteceu que por destino talvez, tenha sido convidada a trabalhar justamente nessa área, por essa causa, por muito tempo e tenho meu trabalho como algo que faz a diferença em nossa sociedade.

Quando nós mulheres lutamos pela igualdade e simplesmente para termos o mesmo reconhecimento que os homens, salário igual e principalmente o respeito, lutamos para um mundo mais justo e é isso que desejo para minha filha, um mundo mais justo e igual para ela.

Como coordenadora e ativista da causa, qual a tua impressão sobre o trabalho desenvolvido?

Minha primeira impressão é de que estamos no caminho certo, atuando de forma eficaz e em busca contínua de aprimoramento e isso reflete na conquista da implantação da Rede de Proteção à Mulher, neste ano e justamente em termos alcançado o real número de mulheres vítimas de violência doméstica na cidade, pois como já havia mencionado, não interpreto como um aumento da violência em Gramado e sim uma maior eficácia na forma de diagnosticar o real número da violência já existente e termos a oportunidade de ofertar ajuda a essas mulheres, para romperem com a violência sofrida.

Como o Centro de Referência de Atendimento à Mulher – CRAM de Gramado trabalha?

O CRAM de Gramado funciona junto ao Gabinete da Primeira-Dama, é um serviço que promove o acolhimento, orientações, acompanhamento e encaminhamentos das mulheres para a Rede de Proteção à Mulher, para que possam suprir todas suas necessidades e assim ajudá-las na superação da situação de violência, nossos atendimentos podem ser por demanda espontânea ou encaminhamento. Tem o objetivo de combater todas as formas de violência praticadas contra as mulheres.

Desde Janeiro deste ano, o CRAM iniciou as atividades com um diferencial, estamos atuando em e 3 eixos:

1 – Combate a violência doméstica;
2 – Educação não sexista;
3 – Valorização da mulher.

Neste sentido o trabalho passou a ter novidades, como inserção de trabalho em grupos, o de valorização da mulher, já estamos na 2ª edição, o de pré-audiência que acontece uma vez por mês fixo, para todas as mulheres que fazem uso da Lei Maria da Penha na cidade e acontecem antes da sua audiência judicial, ainda, no eixo educação não-sexista desenvolvemos, em parceria com os jovens aprendizes do SENAC e a Biblioteca Pública Cyro Martins uma peça de teatro, que tem apresentações contínuas, já estamos na 4ª edição, para ser apresentada a toda a rede de ensino da cidade, com o intuito de trabalhar a temática igualdade e respeito.

Como funciona a Busca Ativa?

Esse ano inserimos novos métodos de identificar as mulheres que sofrem violência doméstica em Gramado, mas que já existiam e funcionavam em Caxias do Sul por exemplo, que é a Busca Ativa, ocorre através da distribuição de uma ficha que constará dados da mulher, distribuída para toda a Rede de Proteção à Mulher e caso seja identificado que a mulher que esteve na entidade da Rede seja vítima de violência doméstica, essa ficha é preenchida e encaminhada ao CRAM, para que possamos fazer contato telefônico e chamarmos essas mulheres para atendimento.

Ainda nesse contexto, acordamos com a Vigilância Sanitária/Secretária Municipal da Saúde, e passamos a receber todas as SINAN’S de violência doméstica (relatórios preenchidos nas instituições de saúde e lançados em um sistema nacional), também no formato que já era efetuado em Caxias do Sul, e no mês de Setembro, iniciaremos o chamamento dessas mulheres vítimas de violência, para atendimento no CRAM.

É importante esclarecermos que não temos o entendimento de que a violência doméstica aumentou na cidade, mas que agora efetivamente, estamos abrangendo um número muito maior de mulheres vítimas de violência, seja pela maior divulgação e abordagem do serviço, pela busca ativa, pela SINAN ou pela formação da Rede de Proteção na cidade.

Quantos casos foram atendimentos pelo CRAM de Gramado até o momento?

2015 – 41 mulheres (sem contagens de atendimentos)
2016- 30 mulheres – 294 Atendimentos
2017 – 73 mulheres – 963 Atendimentos
2018 – Primeiro Semestre– 50 mulheres estiveram no local e 23 foram Busca Ativa (formulários com dados da mulher vítima de violência, encaminhados pela Rede de Proteção à Mulher e efetuado contato telefônico do CRAM) – Totalizando 73 mulheres – 464 Atendimentos

Quem faz parte da Rede de Proteção à Mulher de Gramado?

-Gabinete da Primeira-Dama, através do CRAM – Centro de Referência de Atendimento à Mulher é órgão fundador e articulador da Rede,
-Secretaria Municipal da Saúde,
-Secretaria Municipal de Educação,
-Secretaria Municipal de Assistência Social e Conselho Tutelar,
-Caps – Centro de Atenção Psicossocial;
-Biblioteca Pública Municipal Cyro Martins,
-Poder Judiciário,
-Ministério Público,
-Defensoria Pública,
-Delegacia de Polícia Civil,
-Brigada Militar,
-UCS – Universidade de Caxias do Sul – Polo da Região da Hortênsias,
-AMAE – Associação Materna de Apoio e empreendedorismo,
-Janz Team,
-Hospital Arcanjo Miguel,
-SENAC Gramado.

Na tua opinião, porque a maioria das mulheres não denuncia ou não procura ajuda?

Na minha opinião, isso acontece por uma infinidade de fatores, mas principalmente porque, quando essa mulher escolhe seu companheiro, ela jamais imagina que ele reproduzirá a violência contra ela, quando isso acontece, na maioria das vezes o agressor acaba se retratando e faz falsas promessas de mudança. Também tem que se levar em conta que a mulher resiste muito a romper seu matrimônio, pois sonhou com isso uma vida inteira, e também acaba sentido-se culpada pela violência sofrida e tem uma falsa expectativa de que ele um dia mudará e na maioria das vezes já tem filhos e acaba suportando muito por eles. Embora isso faça muito mal para os filhos e ela não tenha essa percepção, pois está em meio a essas alturas, sofrendo imposição por parte do agressor de isolamento de amigas e parentes, cerceamento de estudo, passeios, e independência, sofrendo humilhação, perda de autoestima e desestabilizada emocionalmente, e com o passar do tempo ela mesmo com muita vergonha e decepcionada, procura ajuda de alguém ou instituição para denunciar e não é raro ouvir:

“O casamento é para ser uma vida inteira, você vai ter coragem de desfazer uma família????”, “Você não deve denúncia seu próprio marido, você devia ter vergonha disso!!!”,“Você deve tentar resolver em família, vai para a casa e se entende com ele” ou até mesmo ouve o questionamento mais severo: “O que você fez para ter apanhado, no mínimo fez por merecer!!!”.

Temos também os casos que desconhecem a existência de serviços específicos de atendimento à mulher vítima de violência doméstica, mas não são raros os casos que desistem de procurar ajuda ou denunciar, aliás a maior parte das mulheres não denunciam, e voltam para seus companheiros, mesmo em meio a violência sofrida, pois são julgadas antes de receberem ajuda, por isso precisamos cada vez mais de órgãos como o Centro de Referência – CRAM especializados em atender esses casos e de uma Rede de Proteção à Mulher, articulada e principalmente sensibilizada.

Por que as mulheres vítimas de violência doméstica devem procurar o CRAM?

As mulheres vítimas de violência doméstica devem procurar o CRAM, porque lá nós temos uma equipe especializada para atendê-las, respeitamos suas escolhas, serão preservados e sigilosos todos seus relatos e a ajudaremos a se fortalecer e romper com a situação de violência sofrida. Além disso temos uma Rede de Proteção à Mulher, que está pronta para recebê-la e prestar todo atendimento necessário, com entidades sérias e comprometidas com a causa. É importante que toda mulher que sofre violência doméstica na cidade, tenha conhecimento de que não está só, estamos prontos para ajudá-la e não exitaremos em momento algum, sintam-se acolhidas e protegidas por nós.

O  CRAM está atualmente em endereço (provisório) no SAJU, na Secretária de Assistência Social, localizado na rua Getúlio Vargas, nº 484, Bairro: Piratini. Telefones (054) 98406-29-44 ou da Sec. de Assist. (054) 3286-43-49. Atende de segunda à sexta das 8h às 12h das 13h às 17h, nas quintas-feiras somente das 8h às 12h.

Uma frase que defina teu trabalho:

Enquanto tivermos feminicídios, mulheres vítimas de violência, sendo tratadas com desigualdade, submetidas a qualquer tipo de injustiça, humilhação e sofrendo com a indiferença, não teremos terminado nossa missão!