Amélia, a Inventriz

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poucos entenderiam o que estava acontecendo ali.
Edson, pai de Maria Isis, deixou ela brincar com fósforos
tomando cuidado de tirar a parte da caixa
que se usa para acender o fogo.
e ele só deixou porque ela insistiu muito.
na verdade,
Maria Isis sempre foi muito parecida com sua mãe, Amélia,
artista plástica, mas conhecida como decoradora.
Amélia gostava de coisas inusitadas,
de mudar os lugares com simplicidade
reafirmando algo que já estava lá.
às vezes, ela levava a filha junto
e lhe ensinava a técnica de seu ofício:
“primeiro, você precisa pertencer ao lugar.
ai, meu anjo,
a mamãe esquece que você tem só sete anos de idade.
vamos pensar de outro jeito
vamos olhar para cada coisa
como se nunca tivéssemos visto algo parecido.
depois vamos ver de longe, como um todo
(…)
agora, imagina que tem emoção, sentimentos nas coisas
porque realmente tem,
a casa fica impregnada do que se sente por aqui.
um objeto que se muda de lugar
quebra um círculo de energia
ou fortalece, depende”
assim, Amélia mostrava a Maria Isis
outro meio de perceber o mundo ao seu redor
outra forma de agir

agir diferente ao pintar um quadro, por exemplo.
quando ela tinha uma vontade
e não uma ideia do que iria pintar
ela deixava que o movimento lhe mostrasse.
pegava então folhas e galhos, grãos,
ou o que tivesse afinidade com seu ímpeto,
e jogava em cima de uma tela deitada no chão
para vislumbrar a ideia do quadro.
assim, o aprendizado seguia vivaz, pois
tanto uma quanto a outra
participava e partilhava suas conclusões.

por isso, mesmo com a longa ausência da mãe,
Maria Isis seguia com seus experimentos,
jogando fósforos em um mapa que ela encontrou na dispensa
ou criando dispositivos de busca