A senha, senhora

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“não importa que tenha uma parte faltando
é aquilo que o Jorge falou
se há um círculo,
o que tem dentro ou fora não importa mais”
“Minnie, eu não falei isso, falei que normalmente
as pessoas ignoram uma infinidade de coisas
quando conseguem fazer um circuito, o que é
muito perigoso”
“tá, é, tem razão. eu só quero dizer que o papo do João
não precisa ser verdade para sairmos.
que tô afim e pronto”
foi assim
que as onze pessoas daquela casa decidiram
formalmente sair pra ver a rua.
a irritação no ar tinha passado e,
como Robledo adiantou,
eles precisavam se virar sem o mercadinho
“lá não tem chapéu de aniversário, só tem bebida
salgadinhos e papel higiênico. eu sei porque
teve uma vez que fiquei mais de meia hora lá no
mercadinho tentando chegar em uma mina
que tava abraçando um pacote de quatro rolos
como se fosse um ursinho hahaha!”
a solução rápida e barata disponível
foi amarrar um copo vermelho com barbante
em cima da cabeça
“cara, a gente é muito americanizado, né?

esses copinhos de festa universitária dos EUA
já é clichê lá
aqui então,
porra!”
“e você é muito afrancesado, Jacques da Silva”
depois de se ajeitarem,
pegaram a estrada velha até o centro em dois carros.
não tinha quase ninguém à vista,
mas mesmo assim foram se sentar praça Major Nicoletti.
foi a Ana Rosa
falar em noite estranha
que um assovio saiu do meio das plantas

um gelo passou por cada um

buscaram pela fonte do barulho
e acharam alguém com roupas de duende
e ele disse:
“qual é a senha?”