“A nossa cultura tem base suficiente para sobreviver por causa daquilo que nos foi transmitido”, afirma o curador da Semana Farroupilha de Canela

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Márcio Cavalli, curador da Semana Farroupilha de Canela. Foto: Rafael Cavalli.


Nascido em Canela e filho de Rejane e Danglar (padrasto a quem chama de pai desde os quatro anos), Márcio Cavalli Castilhos é formado em Letras, Jornalismo e está prestes a se formar em Direito. Além destas especializações, também é um pesquisador da corrente tradicionalista. Casado com Camila e pai de João Pedro, o canelense iniciou suas pesquisas sobre o gaúcho ainda na adolescência. Atualmente, Márcio é curador e coordenador da Semana Farroupilha de Canela, que neste ano, mesmo com os desafios ocasionados pela pandemia, acontece de forma virtual. Um dos sonhos do pesquisador, é ver as escolas de Canela trabalharem a tradição o ano todo.

GN – Como começou esse teu interesse pelo tradicionalismo?

Márcio – Quando eu tinha uns 14 anos, estava com minha família em Itapema (SC), num condomínio. Fiz amizade com uma família paulista, que um dia me pediu para preparar um chimarrão. Tive que chamar a minha tia! Eu não sabia. Os filhos do casal, piás como eu, tiraram sarro por eu ser “do Sul” e não saber. Fiquei envergonhado! Aquilo mexeu comigo. Voltei para Canela e fui ler sobre como fazer chimarrão, aí fui para a história da erva-mate, dos índios, e aí comecei a ler e ler sobre o gaúcho. Com uns 15, 16 anos, gostava de me pilchar na Semana Farroupilha. Comecei a ir em alguns bailes, mas nunca fui incentivado a participar de uma invernada e tal. Muitos jovens despertam para isso quando dentro de um CTG. Não foi o meu caso, pois eu quis saber por mim mesmo. Aprendi a dançar no início dos anos 2000, e em 2008, após fazer o curso de instrutores no MTG, abri minha primeira turma em março de 2009. Eu já participava da gestão do Cláudio Heidrich no CTG Querência, e ele me apoiou muito, o que sou grato até hoje. Passei a propor um trabalho contra trejeitos com objetivo de desvirtuar as nossas danças. Foi difícil, me desgastei, mas não me arrependo, pois levar o conceito de que tradição era uma verdade que me animava. Eu subia no palco e mandava parar o baile, se fosse o caso.

GN – O que te encanta e te faz ser um pesquisador da corrente tradicionalista?

Márcio – É o fato de muito ainda poder ser pesquisado, incluindo aspectos sobre o gaúcho serrano. O próprio Paixão Côrtes morreu deixando umas 70 danças que agora estão sendo ensinadas por pessoas como Sandro Arruda, que receberam do próprio Paixão essa tarefa. Grupos como Os Tapejaras, aqui de Canela, já estão bailando essas coreografias.

GN – Além de ser formado em Letras, Comunicação Social, quase formado em Direito, também é escritor, memorialista, pesquisador, dentre outras funções. Ainda há outra função que desejas desempenhar?

Márcio – Letras me levou ao magistério, que só não exerço por falta de tempo, e se uniu ao gosto de escrever e investigar, que me inclinou ao jornalismo. Concluir Direito é a busca por de um conhecimento jurídico abre caminhos. Sempre fui inquieto e isso me levou a me reinventar, conhecer coisas novas, me aprofundar naquilo que gosto. Conhecimento e estudo não ocupam espaço na mente, só a ampliam.

GN – O tradicionalismo gaúcho está inserido na tua vida diariamente?

Márcio – É muito natural para mim, pois não preciso de um acontecimento específico para usar bombacha. Leio muito, escrevo; ouço músicas. Se não fosse essa pandemia, estaria com minha turma de amigos formada também por ex-alunos dos meus cursos. Mas me considero muito mais um nativista do que tradicionalista, pois não concordo com algumas coisas padronizadas em termos de tradicionalismo organizado. Por exemplo…
O equívoco de transmitir o gaúcho como uma figura uniforme. Muito se passou a imagem do gaúcho como um ser moreno, meio índio, como se nada existisse fora disso – sem falar na chinoca sempre morena. Mas o gaúcho é um ser formado por várias etnias, umas mais predominantes conforme a região. Nós, aqui na Serra, temos traços de povos claros como os italianos e os alemães. Não por isso somos menos gaúchos do que um fronteiriço ou um missioneiro. Cada etnia dessa trouxe contribuições. Os italianos entraram aqui trazendo a gaita; os alemães, danças como o chotes e a polca. Um exemplo é nas competições em que induzem os participantes a declamar como se todos fossem da Campanha. E o alemão de Nova Petrópolis? E o gringo de Antônio Prado? Por que não se pode considerá-los a se manifestar no seu próprio sotaque?

GN – Em um artigo teu, publicado na Zero Hora em 2013, tu dizes: “Não devemos restringir nosso legado campeiro e artístico a um conflito bélico”. Na tua opinião e de acordo com tuas pesquisas, nossos costumes não estão ligados à Revolução Farroupilha?

Márcio – Tudo que herdamos é legado dos nossos antepassados e do resgate feito por Paixão Côrtes e Barbosa Lessa no final dos anos 1940. Se não fossem eles, nem bombacha conheceríamos hoje, pois tudo teria sucumbido à modernidade e à evolução dos trajes, no caso. Aliás, nem bombacha se usava na época da Revolução Farroupilha. A “aurora divina” em torno da Revolução é fruto do interesse de grupos sociais influentes que predominou muito até o Estado Novo de Getúlio Vargas. É aquela coisa que muito aconteceu na História em qualquer lugar: vai para os livros o que os grupos dominantes querem e os personagens que eles nominam ganham status de heróis. A Revolução foi um conflito de estancieiros preocupados com o seu bolso. Não que suas causas não fossem justas, como a questão do imposto sobre o charque cobrado e a tomada de decisões no centro do país, mas não há nada de mágico ou epopeico no conflito. Os farroupilhas, assim como os imperialistas, mataram, saquearam, estupraram… Os negros lanceiros de 35, por exemplo, na batalha de Porongos, foram jogados às linhas de frente para serem mortos, pois os farroupilhas haviam prometido a liberdade a eles se lutassem junto, e isso se daria com a vitória. Mas Davi Canabarro e Duque de Caxias, um de cada lado, acordaram previamente o fim do conflito para adequar interesses. E como os farroupilhas lidariam com os negros, que mesmo com a “guerra perdida” cobrariam liberdade? Matando-os ao máximo para que, em número reduzido, não se revoltassem e retornassem à sua condição de escravos.

GN – Então como devemos considerar a Revolução Farroupilha? 

Márcio – Não podemos ignorá-la como fato histórico, pois estamos falando do maior conflito regional contra a monarquia já ocorrido no país. Os acontecimentos da Revolução geraram fatos que igualmente têm seu valor, como a confecção da nossa bandeira, em que o vermelho representa a criação da república separada do Império, assim como o Hino Rio-Grandense, embora sua autoria resultou de uma imposição ao maestro Mendanha para endeusar os farroupilhas. Mas esses símbolos têm uma carga construtiva histórica, por isso têm toda legitimidade. Repito: histórica. Não tem sentido a gente palestrar em uma escola algo que o professor de História, ali na sala junto, sabe que não é verdade. Pois depois ele vai dizer a eles que não é verdade o mito – e não é mesmo. E aí, como fica a tradição? Equiparada a um faz de conta para contar às crianças? Por causa da insistência nesse mito farroupilha, muitos setores da sociedade não dão seriedade à cultura gaúcha e nem se envolvem. Acham bonito e basta. Afinal, quem quer se ocupar com algo que qualquer professor de História sabe que não é verdade, que tem cara de faz de conta?

GN – E qual o sentido celebrar a Semana Farroupilha?

Márcio É notório que as pessoas e os próprios tradicionalistas em geral dão bola para a questão cultural, para o orgulho de ser gaúcho, algo forjado na lida de campo. Quem sustenta a guerra como algo fundamental para a celebração o faz por desconhecimento ou porque tira alguma vantagem nisso. Para ressignificar a celebração, será preciso franqueza por parte dos organismos tradicionalistas. O problema surge quando a História derruba o mito de maneira desdenhosa, atacando a tradição por meio de pesquisadores que colocam seus apontamentos de maneira agressiva e desdenhosa, e é aí que começa a briga. Há autores que dizem que houve uma invenção do gaúcho, o que não é verdade. Houve, sim, um resgate em forma de culto, mas a insistência no mito, por parte dos tradicionalistas, os faz serem assim. Insistir no que não é verdade tira a credibilidade de qualquer argumento. Quando se conhece a História e se vive a tradição, como eu e muitos, acredito que se possa convergir para o real sentido de se celebrar o gauchismo de forma propositiva ao encontro da verdade dos fatos. E o melhor: sem afetar a cultura.

GN – A Semana Farroupilha de Canela foi idealizada por ti? Esse é mais um sonho realizado na tua cidade de origem?

Márcio – A Semana Farroupilha de Canela foi idealizada pelo CTG Querência há muitos anos. A Secretaria de Turismo e Cultura passou a realizá-la a partir de 2017. Aí o secretário Ângelo Sanches me convidou para coordenar, e o então diretor de Cultura Tiago Melo me deu a figura de curador. Tive a confiança do governo, dos parceiros e a ideia sempre foi buscar a união das entidades para construir cada edição.

GN – Como curador da Semana Farroupilha de Canela, o que o evento pretende com a sua programação? 

Marcio – Desde 2017, a Semana Farroupilha tem um tripé: ser cívico-celebrativa, gerar conteúdos culturais e ser um produto turístico que mostre o gaúcho ao visitante e fortaleça sua figura na comunidade. Celebrar a cultura não pode ser apenas com shows e bailes. Trabalhamos um formato a cada ano de evento, com vistas a democratizar o acesso gratuito a todos, e alcançamos o perfil ideal em 2019, no Espaço Rural do Centro de Feiras. Infelizmente, esta pandemia nos quebrou este ano. Teríamos uma programação de luxo, mas nos reinventamos num inédito formato on-line, graças ao apoio do pessoal da Secretaria de Turismo e Cultura, dos colegas do Departamento de Comunicação da Prefeitura de Canela e das entidades parceiras – CTG Querência, Os Tapejaras, DTG Amigos Estancieiros (independente) e DTG Chaleira Preta, da Escola Neusa Mari Pacheco. Ninguém faz nada sozinho, mas com a união de todos fazemos muito. Temos que unir, não separar.

GN – Qual o sonho do Márcio ligado à tradição gaúcha? 

Márcio – Ver as escolas de Canela trabalharem a tradição o ano todo, não somente em setembro. Também gostaria que a sociedade desse mais valor a esse culto de tradição, mas estamos caminhando para isso em Canela, o que se revela nos parceiros que se agregaram à última Semana Farroupilha presencial, em 2019.

GN – Um momento marcante nestes anos todos de dedicação a essa cultura? 

Márcio – Quando morei em Paracatu (MG), em 2011, tomava chimarrão, usava bombacha. Morávamos numa casa só de gaúchos, e até abri um curso de danças numa academia, algo inédito no Noroeste mineiro. Certa feita, uma escola me procurou para ensinar a estudantes algo sobre ao Rio Grande do Sul, pois deveriam apresentar algo no Festival de Folclore do Sesc. Como havia levado bombachas, lenços, guaiacas e outros apetrechos na mala, emprestei meus trajes aos peões e fizemos saias e blusas para as prendas, para quem eu ensinei gratuitamente algumas danças. Na apresentação, preparamos slides com imagens do RS e de Canela, com “Céu, Sol, Sul, Terra e Cor” de música de fundo. Depois, um ronco de macaco ecoou largando a música, e eu e os alunos começamos a dançar bugio seguido por algumas danças folclóricas. Apresentamos em praça pública. Foi tão mágico aquilo, que muitos amigos meus gaúchos choraram assistindo na plateia. Só de lembrar me arrepia. É impressionante a sede dos desgarrados em cultivar algo longe do pago.

GN – O que o Márcio tem a dizer para os tradicionalistas?

Márcio – Não precisamos ter medo de desmitificar a Revolução Farroupilha, dando a ela o caráter histórico que convém, pois a nossa cultura tem base suficiente para sobreviver por causa daquilo que nos foi transmitido e que nós conservamos nas mais variadas lidas.